Cláudio Lins (José Guerra) e Graziella Schmidt (Maria Paixão): é óbvio ou quer mais?

Assisti a dois capítulos de Amor & Revolução estas semanas. Com toda boa vontade, diga-se. Mas apesar de toda a boa vontade também da novela, não adianta: simplesmente não dá para levar a sério.

Embora a produção já seja melhorzinha, comparada às antecessoras do próprio SBT, a trama e os diálogos são primários. Chega a dar dó de grandes atores que estão no elenco, como Lúcia Veríssimo e Cláudio Cavalcanti, com a tarefa ingrata de dizer falas tão ruins.

Não chega a ser uma surpresa para quem acompanhou a saga dos mutantes, do mesmo Tiago Santiago. Me lembro que vi o primeiro capítulo e, para mostrar que um personagem conseguia ler mentes, era mais ou menos isso o que acontecia:

O rapaz estava na sala, e aparecia o avô, com as mãos nas costas e sua voz em off dizendo algo como: “Estou tão cansado… Minha idade é tão difícil…”.

Logo o rapaz dizia: “Está cansado, vovô? Senta aqui…”. E o velho: “Ô, meu filho, até parece que você lê os nossos pensamentos…”.

Logo em seguida, é a mãe que entra. Procurando alguma coisa e, de novo, com voz em off: “Onde estão minhas chaves? Estou atrasada, vou perder meu compromisso…”

E o rapaz: “Mãe, suas chaves estão no cinzeiro da estante”. E ela: “Oh, meu filho… Você, hein? Sempre lendo nossos pensamentos…”.

Juro que foi assim. Minha vontade era a de gritar: “EU JÁ SEI!! JÁ ENTENDI!!”.

Pelo andar da carruagem, continuou assim. É o que meu amigo Manassés, conta, dizendo era a sitcom preferida dele.

Pois Amor & Revolução, em que pese sua pose de tema importante, é do mesmíssimo jeito. Tatibitati ao extremo, nunca confiando na inteligência de seu público. Nunca consegue construir um diálogo que pareça verdadeiro.

“A coisa não está boa para nós, comunistas”.

“Somos só nós dois, como Adão e Eva no paraíso”.

“Não me mate! Eu sou pai e minha mulher é mãe!”.

É esse o quilate.

Na trilha, um desastre. Não pelo repertório escolhido, excelente, sempre calcado na MPB da época – de preferência, canções de protesto. “Roda vida”, “Alegria, alegria”, “Caminhando”, “Domingo no parque”, “Cálice”… estão todas lá. O problema é que, em cada cena, entra uma das canções, com letra e tudo e sem variação de arranjo conforme o tom da situação.

É repetitivo e, de novo, primário. Como se a novela não soubesse como (ou tivesse medo de) trabalhar as canções. Vai ser assim a novela inteira? Eu assisti dois capítulos e já me enchi.

E, claro, não podem faltar as cenas de tortura. Até porque parece que a novela foi criada apenas para elas. É uma atrás da outra, muita gritaria e, história mesmo, tem pouca. Uma hora vai anestesiar os espectadores fiéis.

Enfim, é melhor pegar o DVD de Anos Rebeldes e assistir de novo.

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