Nesta sexta tem show da Zizi Possi de graça no Espaço Cultural. Que coincidência: foi o gancho perfeito para uma entrevista com a cantora, o que eu já estava com vontade de fazer há várias semanas. A correria que antecedeu o papo – a agenda da cantora estava cheíssima – não deixava prever o prazer da conversa. Falamos principalmente de seu início de carreira e ela ainda falou um pouquinho de algumas de suas pincipais canções.

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Zizi: uma das mais belas vozes da música brasileira

Zizi Possi, uma das mais belas vozes da músixca brasileira, poderia ter sido uma intrumentista de concertos. A cantora, paulistana e descendente de napolitanos, que faz show hoje em João Pessoa (às 18h, no Espaço Cultural, com entrada franca), contou em entrevista que começou a estudar piano clássico aos quatro anos e que não “escolheu” a carreira na música popular. “Nunca quis nada, eu ia fazendo”, disse, por telefone, de São Paulo.

Maria Izildinha Possi, ou apenas Zizi, se apresenta no Som das 6 com o show Cantos & Contos, originário dos dois DVDs onde ela comemora seus 30 anos de carreira. A vida acabou levando-a por este caminho de tantas canções, algumas especiais, que ela comenta nesta entrevista (veja abaixo). mas poderia ter sido diferente. “Desde pequena tenho formação erudita muito forte, de piano clássico”, lembra Zizi. “Entre na escola com quatro anos de idade e já fui aprendendo ali a linguagem musical”. Suas primeiras referências, portanto, são desse universo. “Sempre ouvi canções dos livros que eu tocava: Chopin, Mandel…”, conta.

No rádio, ela ouvia Vicente Celestino. “Eu adorava. Tinha um programa chamado A Noite da Saudade, que eu sempre ouvia. Depois, veio uma época italiana muito forte: Domenico Modugno, Rita Pavone…”, complementa, brincando. “E ouvia muito Gonzagão. As influências mais loucas do mundo”.

E, claro, muita Jovem Guarda. “Quando surgiu, você não tem noção de como enlouqueci com isso”, conta. “Eu fiz promessa porque queria casar com o Roberto Carlos!”.

Zizi estudou piano até os 17 anos. Aí, em 1973, mudou-se para Salvador, para estudar na UFBA e se formou em Composição e Regência.

“Eu não pensava muito no que eu queria ou não queria”, diz. “Naquela época, acho que a gente pensava nisso depois. A vida foi me mostrando o que queria de mim”.

E a vida se mostrou através de Roberto Menescal, compositor e músico sempre ligado à história da Bossa Nova. Mas como ela conheceu Menescal?

“Foi ele quem me conheceu”, lembra, rindo. “Ele foi para Salvador e soube que eu existia”. Na época, Zizi cantava em bares na noite soteropolitana e Menescal era diretor artístico da Polygram. “Eu tinha gravado um programa de televisão local. Ele viu e me deixou um bilhete”, conta a cantora.

Quando foi feito o contato, Zizi trocou Salvador pelo Rio e gravou seu primeiro disco: Flor do Mal (1978). No mesmo ano, ninguém menos que Chico Buarque a convidou para dividir a faixa “Pedaço de mim” no disco dele. Vários hits foram enfileirados a partir daí: “Meu amigo, meu herói” (1980), “Caminhos de sol” (1981), “Asa morena” (1982), “O amor vem pra cada um” (excelente versão de “Love comes to everyone”, de George Harrison, 1983), “Perigo” (1986), “Noite” (1987). A cantora comenta algumas delas nesta página, uma maneira de se tornar ainda mais íntimo delas para o show de hoje.

Zizi comenta as canções:

“Asa morena” (Asa Morena, 1982) – “Recebi do compositor Zé Caradípia. Eu recebia muitas músicas de compositores novos. Achei linda e, por ser de um compositor inédito, senti que não podia perder a chance de gravar”.

“Pedaço de mim” (Chico Buarque, 1978, e Pedaço de Mim, 1979) – “Eu fui chamada para cantar essa. O Chico me chamou. E vamos combinar, né? O Chico convidando…”.

“Meu amigo, meu herói” (Zizi Possi, 1980) – Meu irmão (José Possi Neto, diretor teatral) descobriu. Estava em uma peça de teatro. Ele me mostrou e fiquei apaixonada. O (Gilberto) Gil nem lembrava dessa música.

“Noite” (Amor & Música, 1987) – Eu conheci porque o Jorge Salomão (o compositor, ao lado de Nico Rezende). Essa música é o máximo, eu me vejo nela. Já tinha vivido aquela solidão muito tempo na minha vida: ‘Sozinha num quarto fechado, eu vejo a cidade de longe…’”.

“Per amore” (Passione, 1998) – “Nesse disco, eu gravei só músicas napolitanas. Tem a ver com uma memória de ancestralidade. Essa é uma das canções modernas do disco. Quando ouvi, achei linda. Ouvi pela voz do (Andrea) Bottelli e aí fica fácil gostar da música”.

“Perigo” (Zizi, 1986) – “É uma cantada gay que eu acho sensacional! Quando ouvi, achei que era hit total. Eu disse para os compositores (Nico Rezende e Paulinho Lima): ‘Vai ser  um hit maravilhoso’”.

“Caminhos de sol” (Um Minuto Além, 1981) – Também era de compositores novos (Herman Torres e Salgado Maranhão). É uma música linda, tanto que peguei uma frase dela para ser o nome do disco”.

* Publicado no Correio da Paraíba de hoje.

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