A volta (por cima) dos mutantes

Bons atores, inteligência e intriga política garantem qualidade do novo filme dos X-Men

Talvez, no fim das contas, X-Men – Origens: Wolverine (2009) tenha tido um efeito positivo. Com as expectativas em baixa com relação a um novo filme dos super-heróis mutantes, todos foram surpreendidos com prazer ainda maior em constatar o acerto que X-Men – Primeira Classe (X – First Class, EUA, 2011) é.

Dirigido por Matthew Vaughn, o filme é mais um a tentar dar continuidade a uma série voltando a seu passado – para contar o que se passou antes dos primeiros filmes (como a “nova trilogia” de Guerra nas Estrelas) ou mesmo para apertar o reset e mudar tudo (caso de Star Trek, 2009, e 007 – Cassino Royale, 2006).

X-Men – Primeira Classe acaba ficando entre essas duas premissas. O nome de Bryan Singer, diretor dos dois primeiros X-Men, entre os produtores e autores da história original deste novo filme cria uma unidade natural entre os episódios. Mas esse início também ignora solenemente (até prova em contrário) o prólogo do terceiro filme, X-Men – O Confronto Final (2006).

Singer já não estava na equipe (havia saído para fazer Superman – O Retorno, 2006). O prólogo mostrava versões mais jovens de Charles Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) recrutando a jovem mutante Jean Grey. Os veteranos atores estavam nitidamente alterados digitalmente para parecem mais jovens.

A versão desses mesmos personagens em Primeira Classe é ainda mais jovem. Quem viu os anteriores sabe que Xavier e Erik Lehnsher (ou Magneto) foram aliados antes que fossem separados por suas visões diferentes a respeito de  dever unir aos humanos não mutantes ou dominá-los. O filme mostra como ficaram amigos e como, depois, vieram a estabelecer times opostos.

O roteiro une com destreza fatos reais (a crise dos mísseis que quase levou americanos e soviéticos à guerra nuclear) com a ficção (os mutantes estariam diretamente envolvidos na tensão político-militar daqueles dias). Isso não deixa de também ter uma relação com o surgimento dos próprios X-Men nos quadrinhos (em 1963) e da linha que Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko adotaram na Marvel, a de desenvolver seus novos heróis em um ambiente mais realista.

Aliado a isso, há uma contrução de personagens de deixar muitos filmes sobre super-heróis (ou qualquer filme) com inveja. Sem Wolverine como protagonista (embora o personagem renda a melhor piada do filme), o debate de idéias entre Xavier (agora vivido por James McAvoy) e Magneto (o ótimo Michael Fassbender) ganha relevo, assim como o desenvolvimento de personagens como o Fera (Nicholas Hoult) e, principalmente, a Mística (a também ótima Jennifer Lawrence, indicada ao último Oscar aos 19 anos por Inverno da Alma), cujo dilema é um dos epicentros do filme.

Por outro lado, Kevin Bacon e January Jones estão bem à vontade como os vilões Sebastian Shaw e Emma Frost. Bacon está especialmente se divertindo no papel. January não tem tanto a fazer, mas corresponde ao que é exigido de sua personagem. Alguns devem ser protagonistas e outros coadjuvantes, não tem jeito.

Com tudo isso, Vaughn ainda tem inspiração para sacadas narrativas admiráveis. É o caso da trilha sonora sessentista da seqüência do recrutamento (um achado de Henry Jackman), a montagem com tela dividida e recortada na seqüência do treinamento, evocando o grafismo das aberturas da época em que se passa o filme, e o notável plano paralelo da moeda (se você assistiu o filme, sabe qual é).

Boas atuações (Michael Fassbender está ótimo, principalmente na cena da caça aos nazistas em um bar argentino), inteligência e respeito aos personagens é muito mais do que filmes assim costumam entregar. Na verdade, deveria ser o pilar dos filmes em qualquer gênero.

X-Men – Primeira Classe. (X – First Class). Estados Unidos, 2011. Direção: Matthew Vaughn. Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, January Jones, Rose Byrne, Hugh Jackman, Rebecca Romijn.

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