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Continuação de personalidade

Hermione (Emma), Harry (Radcliffe) e Rony (Grint): crescendo

Há um salto evidente entre o filme anterior, Harry Potter e a Câmara Secreta (2002) e este Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, EUA/ Reino Unido, 2004), o terceiro da série. A mudança de Chris Columbus, um diretor competente, mas sem ousadia, pelo mexicano Alfonso Cuarón deu ao terceiro filme uma personalidade própria, sem deixar de ser uma continuação lógica e natural dos dois primeiros. A referência de Cuarón era, àquela altura, o intenso e erótico E Sua Mãe Também (2001), o que poderia fazer sua escolha parecer estranha. Mas ele não era totalmente alheio à plateia infanto-juvenil: dirigiu o ótimo A Princesinha (1995).

O que mais se sobressai, sem dúvida, é a mudança de estilo. Mesmo em pequenos detalhes, como cenas que terminam e começam com uma íris – um recurso do cinema mudo em que um círculo vai fechando uma cena e abrindo a seguinte. É um dado inteligente que contribui para criar uma atmosfera um pouco mais sombria do que o anterior. A passagem de tempo no filme é marcada pelas mudanças na árvore “temperamental” que foi vista no filme anterior – o que também é uma antecipação para o papel que ela própria terá no fim deste filme.

Os cenários do mundo encantado de Hogwarts também começam a parecer mais lúgubres e frios. Não há mais tanto lugar para quadros vivos e escadas que mudam de direção, embora elas estejam lá. Harry (Daniel Radcliffe), Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) também se vestem de maneira bem mais informal na maior parte do tempo, parecendo mais jovens do dia-a-dia e deixando claro que o tempo do encantamento com o mundo da magia já passou.

A história começa com Harry fugindo da casa dos tios trouxas após mais uma ofensa com relação a seus pais, também bruxos. No entanto, ele acaba sendo levado a seus amigos bruxos, que estão preocupados com a fuga de Sirius Black (Gary Oldman), um notório assassino, da prisão de Azakaban. Como ele traiu os pais de Harry, provocando a morte deles pelas mãos de Voldemort, acham que Sirius pode tentar matar Harry também.

Carcereiros de Azkaban ficam nas entradas de Hogwarts para o caso de Sirius aparecer – mas são muito mais assustadores. São criaturas chamadas dementadores, que farejam o medo e sugam a essência vital de suas vítimas. Mas não parecem discernir quem é inocente e quem deve ser punido: qualquer um pode ser vítima deles.

Dois novos professores estão na trama. Sibila Trelawney, vivida por Emma Thompson, ensina clarividência e não parece muito firme no que está fazendo, mas acaba é responsável por uma premonição sinistra importante. E Remo Lupin (David Thewlis) assume a cadeira de Defesa contra a Arte das Trevas. Ele fez parte do grupo que combateu Voldemort no passado e foi amigo do pai de Harry.

Também estreia na série Michael Gambon, como Dumbledore, substituindo Richard Harris, que morreu após o segundo filme. Gambon não se espelha na atuação anterior, construindo um Dumbledore com mais energia. Visualmente, o filme também não se preocupou em torná-lo parecido com a encaranação anterior, o que é curioso, mas não prejudica em nada o filme do ponto de vista de quem acompanha a série toda.

O trio de jovens protagonistas está crescendo – já parecem bastante diferente com suas primeiras cenas, em A Pedra Filosofal. Isso também se reflete em suas atitudes da história: há um pouco mais de rebeldia, questionamento e até destempero.

Os três também são apresentados a novos elementos mágicos: o hipogrifo Bicuço, um lobisomem que ronda Hogwarts e alguns interessantes instrumentos, entre eles: o mapa do maroto, que revela onde está cada uma das pessoas em Hogwarts e que é usado por Harry em uma busca por um corredor escuro, em uma cena de admirável suspense.

Tudo é preparação para a sensacional meia hora final de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – certamente, um dos melhores momentos da série inteira. A cena envolve, claro, a volta de Sirius Black, aparições repentinas, traições, indefinições sobre os objetivos de vários personagens, enfrentamento e fuga – tudo isso em poucos minutos. Há mais depois, envolvendo o caso do lobisomem e uma mexida no tempo que o filme narra de maneira magistral. São momentos que elevam este Harry Potter um patamar acima dos dois anteriores e pavimenta o tom em que os próximos iriam trilhar.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, EUA/ Reino Unido, 2004). Direção: Alfonso Cuarón. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Robbie Coltrane, Alan Rickman, David Thewlis, Emma Thompson, Gary Oldman, Maggie Smith, Oliver Phelps, James Phelps, Julie Waters, Bonnie Wright, Tom Felton, Mark Williams, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Julie Christie, Timothy Spall, Matthew Lewis, Geraldine Somerville, Warwick Davies.

Leia mais:

Precedido por:
– Crítica de Harry Potter e a Pedra Filosofal
– Crítica de Harry Potter e a Câmara Secreta

Seqüências:
– Crítica de Harry Potter e o Cálice de Fogo
– Crítica de Harry Potter e a Ordem da Fênix
– Crítica de Harry Potter e o Enigma do Príncipe
– Crítica de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1
– Crítica de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

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