Clímax do começo ao fim

Harry, Hermione e Rony: urgência na ação e no romance

Na divisão do livro Harry Potter e as Relíquias da Morte em dois filmes, a Parte 1 avançou até cerca de 350 páginas, restando, para a Parte 2, se concentrar nas últimas cerca de 150. Isso reflete muito o que são os dois filmes, muito diferentes entre si. Boa parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (2010) segue em compasso de espera, com Harry (Daniel Radcliffe), Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) se escondendo dos seguidores de Voldemort, enquanto tentam descobrir como como contra-atacar e destruir o vilão. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA/ Reino Unido, 2011) mostra, enfim, esse contra-ataque. É um grande clímax, do primeiro ao último fotograma.

Em seus sete filmes anteriores, a série ficou marcada por uma coerência artística admirável, à qual o oitavo e último filme se integra com perfeição. A trama soma referências a todos os filmes anteriores, entre personagens, elementos físicos e flashbacks. E coroa o amadurecimento visível e constante da série, desde os primeiros dias de alegria e encantamento em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001).

Se gradativamente os filmes foram ficando mais difíceis para quem pegava o bonde andando, o capítulo oito não tem a menor cerimônia (nem muito tempo para gastar) com os novatos na platéia. Já começa como se, na TV, estivesse voltando de um comercial: pegando a história pelo meio e seguindo em frente em ritmo acelerado e quase ininterrupto. As informações precedentes sobre o que está acontecendo são inseridas rapidamente, mas, pelo menos, bem colocadas nos diálogos.

O importante é saber que os jovens bruxos estão à procura das últimas horcruxes, os objetosonde Voldemort depositou as partes fracionadas de sua alma e que devem ser destruídos para que o vilão volte a ser mortal e possa ser, então, derrotado. E devem fazer isso antes que ele e seus seguidores, os comensais da morte, invadam e dominem Hogwarts e, na seqüência, o mundo inteiro.

Para isso, Harry, Rony e Hermione começam invadindo o banco dos bruxos e retornam a Hogwarts, pouco antes da escola virar palco de uma batalha entre Voldemort e seus seguidores contra os professores e os alunos. Ali se dará as últimas revelações e o confronto final entre Harry e Voldemort.

Essa grande clímax parece dar a este oitavo filme menos oportunidades para ousadias formais e temáticas que o anterior – e é verdade. Mas a narrativa do diretor David Yates (a partir do roteiro de Steve Kloves) é praticamente impecável. O filme – superpopuloso e com muita informação – talvez pudesse ser apenas um pouco mais longo (com 2h10 de duração, é o mais curto da série) para que algumas situações fossem trabalhadas com mais atenção.

Mas isso a princípio. Mortes de personagens queridos e/ ou importantes que são mostradas rapidamente ou só depois de acontecer, mas Yates pode estar querendo dizer alguma coisa sobre a banalidade da vida em uma guerra e fazer tudo isso pesar ainda mais sobre os ombros de Harry: ao encerrar um combate, logo se descobre que um amigo morreu, e depois mais outro e outro… Da mesma forma, há pouco (pouquíssimo) tempo para romance, e tudo se torna urgente. Como diz um personagem, que resolve declarar seu amor por uma garota porque a expectativa de morrer dali a algumas horas.

Mesm0 com toda a urgência, há momentos muito inspirados. A invasão ao banco rende uma movimentada cena de ação, mas o filé mignon é o início dela: um bem armado suspense, com escolhas de tomadas muito interessantes – como o olho aterrorizado de Rony em primeiríssimo plano, na iminência de ser descoberto.

Mas o grande momento mesmo é quando entra em cena a penseira e Harry literalmente mergulha nas lembranças de Severo Snape, mostrando o grande personagem que ele é, reforçado pelo talento incrível de Alan Rickman. É algo que simplesmente redimensiona a série desde seu início.

Também é bom ver Maggie Smith voltando a ter destaque depois de vários filmes em que foi quase figurante. A verdadeira convenção de grandes atores britânicos que a série Harry Potter virou se tornou uma atração à parte – eles foram como professores, realmente, para os alunos Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint. E estão quase todos de volta, muitos para uma aparição e duas ou três falas. Não é o caso de Ralph Fiennes, claro, que se diverte a valer com seu Voldemort, indo do mais terrível até a fanfarronice.

São personagens que se tornaram extremamente familiares para o público nestes dez anos. E esses personagens e esse público foram brindados com um fecho de ouro, com direito a um epílogo comovente. Nem é preciso ser muito atento para reparar que, de uma cena bem específica no meio e daí para o fim do filme, o tema original de John Williams volta com força. Muito presente nos três primeiros filmes da série, o “Hedwig’s theme” foi se tornando cada vez mais discreto quando outros compositores assumiram a função. Agora, com Alexandre Desplat o traz de volta e a série se encerra, no eílogo, muito apropriadamente fechando também este ciclo.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA/ Reino Unido, 2011). Direção: David Yates. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Helena Bonham Carter, Tom Felton, Bonnie Wright, Evanna Lynch, Maggie Smith, Robbie Coltrane, Julie Walters, Mark Williams, James Phelps, Oliver Phelps, Jim Broadbent, Jason Isaacs, David Thewlis, John Hurt, Emma Thompson, Kelly Macdonald, Gemma Jones, Helen McCrory, Ciarán Hinds, Warwick Davis, Gary Oldman, Geraldine Sommerville, Adrian Rawlins, Michael Gambon.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

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Precedido por:
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