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Paris é um encantamento

Adriana (Marion Cotillard) e Gil (Owen Wilson): madrugadas mágicas na Cidade Luz

É engraçado como Woody Allen, cético como ele é e sempre afirmando como estamos sozinhos no universo, impregna de magia seu cinema. Em seus filmes, mágicos de palco fazem mágica de verdade (mesmo quando não sabem ter esse poder), fantasmas aparecem de vez em quando, pessoas podem mergulhar em mundos que parecem distantes. Em Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, EUA/ Espanha, 2011) é a magia da cidade-luz que se faz presente.

Para quem lembra bem de Manhattan (1979), a abertura de Meia-Noite em Paris vai soar familiar. Não é mera coincidência: se um era uma declaração de amor a Nova York (que abria com grandes imagens da cidade ao som da “Rhapsody in blue”, de Gershwin), agora Allen não esconde seu fascínio por Paris, abrindo o filme também com uma longa cena de cartões postais da capital francesa, ao som de “Si tu vois ma mère”, de Sidney Bechet (clarinetista nascido em Nova Orleans, mas que viveu anos na França).

Só depois disso é que surgem seus tradicionais créditos, sem música, com o diálogo entre Gil (Owen Wilson), fascinado por Paris, e sua noiva Inez (Rachel McAdams), que não está nem aí. Gil é um bem-sucedido roteirista de Hollywood, mas sonha mesmo é em se tornar um escritor “sério”, como seus heróis literários. Os dois estão acompanhando os pais dela, que estão na cidade para fechar um negócio.

É um dado importante: eles estão ali circunstancialmente, não pela cidade em si. Não dão a mínima para caminhar por Paris sob a chuva, como Gil. “Como competir com uma cidade inteira?”, reflete ele, a certa altura, sobre fazer arte. Certamente, era o único predisposto – ou merecedor, talvez – da experiência que estava prestes a experimentar e que faz de Meia-Noite em Paris um dos filmes mais saborosos de Woody Allen dos últimos anos – comparável a obras-primas como A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e A Era do Rádio (1987).

E, nesse ponto, se você ainda não assistiu ao filme, é melhor parar de ler, porque é impossível analisá-lo sem as revelações do enredo.

A comparação com A Rosa Púrpura do Cairo também não é sem propósito. Cecilia (Mia Farrow), a certa altura, entrava dentro de um filme hollywoodiano dos anos 1930 e vivia um pouco daquele mundo encantado. Gil, por sua vez, se perde (ou mergulha fundo) em Paris à noite e acaba em um carro que o leva a uma festa onde conhece Zelda e Scott Fitgerald e, em seguida, Cole Porter.

Paris era uma meca cultural nos anos 1920 e Gil vive esse ambiente, cruzando com inúmeros artistas que viviam na cidade ou a frequentavam regularmente. Aí Allen dá um show de ótimas piadas – muitas delas cifradas, para quem conhece aqueles artistas e suas obras.

A princípio, isso poderia sugerir que boa parte das plateias simplesmente não iriam entender as referências. Realmente, quem conhecer bem Luís Buñuel ou Salvador Dalí vai se divertir muito mais, mas a verdade é que ainda assim o filme é um sucesso de público (para os padrões de Allen). Isso se explica por duas razões.

A primeira é que você pode não conhecer todo mundo, mas, com uma cultura minimamente razoável, conhece alguns dos personagens nem que seja por alto. Você pode não saber quem é a escritora Djuna Barnes e porque, ao dançar com ela, não era de estranhar que ela estivesse querendo conduzir, mas pelo menos já ouviu falar em Picasso e Ernest Hemingway.

A segunda é que não é preciso conhecer nenhum desses grandes artistas para se divertir com o espanto de Gil ao encontrar cada um deles. Basta saber – e isso o filme dá a entender facilmente – que são muito importantes. Nesse ponto, a atuação de Owen Wilson – nitidamente recriando a interpretação típica do próprio Woody Allen – é exemplar.

E, em um filme tão nostálgico, de ambientação sedutora e uma trilha sonora  que é uma delícia [com “Let’s do it (Let’s fall in love)” e “You do something to me”, de Cole Porter, “Ain’t she sweet”, de Milton Ager e Jack Yellen, entre outras], Allen dá um golpe de mestre ao ponderar sobre esse sentimento – através da nostalgia de Adriana (Marion Cotillard), uma garota dos anos 1920 que acha que bom mesmo era na belle epoque (a Paris pouco antes da virada do século XIX para o XX).

A ideia é clara, mas tem duas visões possíveis. Numa, pessimista, o passado é um local muito bom para se visitar, mas não para morar. Na outra, otimista e romântica, o passado não é um lugar para se morar, mas para se visitar – várias vezes. Woody Allen certamente é do segundo time.

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris). Espanha/ EUA, 2011. Direção: Woody Allen. Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Adrien Brody, Michael Sheen, Kathy Bates, Léa Seydoux, Carla Bruni.

* Crítica publicada no Correio da Paraíba.

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