A Companhia de Dança Deborah Colker apresentou seu novo espetáculo Tatyana em agosto, em João Pessoa. Foi quando a entrevistei por telefone para o Correio. Hoje, o espetáculo estreia em São Paulo e aproveito para colocar aqui a entrevista.

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Deborah Colker, contadora de histórias

Deborah Colker: "No palco, você tem um Pushkin que, na verdade, é a Deborah"

Os avós de Deborah Colker, tanto paternos quanto maternos, eram russos. Isso não a fez ter um especial interesse pela cultura daquele país. “Mas é algo com que eu tenho intimidade”, contou a coreógrafa ao CORREIO, por telefone, do Rio. “Desde pequenininha ouço o meu avô lendo contos do Dostoiévsky e outros autores”. Pois foi baseado em uma obra de Alexandre Pushkin, considerado o pai da moderna literatura russa, que ela concebeu o novo espetáculo Tatyana.

O espetáculo é uma adaptação do romance Eugene Onegin (no original, Evguêni Oniéguin), de 1833, escrito em versos que foi adaptado por Tchaikovsky para uma ópera em 1837. Deborah enfrentou o desafio de transformar os versos de Pushkin em passos de dança. E, se o balé clássico sempre teve por base contar histórias, não é o caso da dança contemporânea. Tatyana é seu primeiro espetáculo com uma história com começo, meio e fim.

“Na verdade, isso não caiu de paraquedas na minha mão. ‘Eu não disse: ‘Ah, agora tá na hora da dança conteporânea lidar com a literatura!’”, explica Deborah. “Meus outros espetáculos eram sobre ideias. Casa era sobre o cotidiano; 4 x 4 era sobre dança e artes plásticas; Velox era dança e esportes; Rota era a gravidade… E era um espetáculo que questionava a condição humana. Era sobre o desejo, e desejos podem ser os mais terríveis,
os mais perversos”.

Na preparação do , Deborah passou a estudar filosofia com seus bailarinos. “O ser humano conta uma história de vida. E eu quero que cada bailarino tenha  uma história e falar de valores éticos, amizade, amor, amadurecimento. Isso começou a se desenvolver dentro de mim desde 2003”.

Árvore, símbolo da aristocracia rural, foi criada por Gringo Cardia

A evolução dessa ideia a levou a Pushkin. “Toda a cultura russa do século XIX é impressionante”, diz ela. “Na poesia tinha Maiakovsky, na música Tchaikovsky e todos os compositores, no romance Dostoiévsky, Tolstói…”.

Mas ainda havia o desafio da adaptação. “Até que ponto você quer que o  público entenda essa história?”, ela pergunta, como se tivesse questionado a si  mesma. “Se o público entender, é mais gostoso, enriquecedor. Mas a dança  contemporânea pode não contar uma história, embora esteja contando outras coisas”.

As diferenças para o balé clássico são evidentes. “O mundo clássico se apropria da pantomima, da mímica”, explica Deborah. “Isso, pra mim, não era relevante”. Ela elaborou sobre a história, resumindo tudo aos dois casais principais: Oniéguin e Tatyana, e Vladimir e Olga. E vários bailarinos  interpretam ao mesmo tempo os personagens. “Todos os homens são Onegin e todas as mulheres são Tatyana”, diz. “Cada bailarino tem uma faceta da personalidade, um movimento diferente”.

O cenário tem uma grande árvore metálica, criada pelo cenógrafo Gringo Cardia. “A árvore é o lugar da aristocracia rural. É uma abordagem muito diferente. E posso te dizer que me cocei para fazer essa abordagem diferente”, conta Deborah Colker.

"Todos os homens são Onegin e todas as mulheres são Tatyana"

Para fazer algo tão diferente, foi preciso conhecer bem a obra original. “Eu mergulhei muito no livro”, confirma ela. “Foi muito bacana fazer meus bailarinos lerem Pushkin. A gente leu cada capítulo, improvisou, viu o que era
importante. Fiquei dois anos debruçada em cima desse livro”.

Curiosamente, Eugene Onegin já foi adaptado para balé clássico por John Cranko, como Onegin. “A minha adaptação pega seis capítulos do livro, a dele dois”, diferencia. “Eu trago do livro a sequência do sonho, a superstição, a colheita e a sequência da carta de uma maneira diferente. E não é uma história de amor: é uma história da vida, de transformação”.

Em Tatyana, Deborah Colker também voltou a dançar, o que não pôde fazer nos últimos espetáculos, até pelas ocupações com o Cirque du Soleil, para o qual dirigiu Ovo. “Era impossível estar em dois países ao mesmo tempo”, diz. “Quando eu comecei a fazer Tatyana, todo mundo perguntava: ‘Você vai dançar?’. E dizem que faz a maior diferença!”.

Mas o começo da coreografia não previa a participação de Deborah: apenas um bailarino faria Pushkin. “Mas havia toda uma parte ligada aos cinco sentidos, muito sutis. E ninguém tava conseguindo fazer do jeito que eu queria. Aí, comecei a fazer”.

A brincadeira de interpretar o narrador reflete uma relação do autor e sua obra: Pushkin e o livro e Deborah e o espetáculo. “Pushkin era um autor que interferia, se apaixonava e sofria com os personagens”, diz Deborah. “Então, no palco, você tem um Pushkin, que, na verdade, é a Deborah”.

* Publicado no Correio da Paraíba

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