Reinício com vida própria

Mais que um macaco, menos que um homem?

O Planeta dos Macacos (1968) original teve um dos finais mais surpreendentes e chocantes já vistos no cinema. Por isso, se você não conhece nada sobre a série, é aconselhável assisti-lo antes  deste novo Planeta dos Macacos – A Origem (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011). Mas, se você não se incomoda com isso, não se preocupe. Este novo filme é tão bom que o nome “planeta dos macacos” parece mais marketing, para fazer parte de uma franquia e já começar soando familiar. Apesar das referências en passant, o filme em cartaz não depende em nada da mitologia da série: já seria ótimo sem ela.

A história parte de um experimento com chimpanzés que busca a cura do Mal de Alzheimer, mas acaba resultando em um macaco com uma inteligência prodigiosa, mas sem lugar no mundo (feito através de capturas dos movimentos de Andy Serkis, que já havia sido o Gollum de O Senhor dos Anéis e o King Kong da versão mais recente). Ele recebe o nome de Caesar (uma referência tanto a Julio César, imperador romano que foi título e personagem principal de uma peça de Shakespeare – de onde surge o batismo no filme -, quanto à série original que também tinha um filhote chamado Caesar à frente da evolução símia). Encontra uma família no cientista Will (James Franco), no pai dele, Charles (o ótimo John Lithgow), e a namorada Caroline (Freida Pinto), mas não tarda a descobrir também o lado ruim do mundo humano.

Apenas em seu segundo longa, o diretor Rupert Wyatt não faz feio: a história possui um andamento exemplar, evolui sem sobressaltos, e tem alguns pequenos links com a trama original (repare na missão espacial à Marte que, depois, está “perdida no espaço”), mas anda sempre com as próprias pernas. A angústia de Caesar é percebida pela plateia e dá uma nova luz sobre o filme de 1968. Seria Caesar mais do que um macaco e menos do que um homem? Por isso é bom assistir ao original antes: para não estar muito influenciado por este.

E para quem nunca viu nada da série – nem mesmo aquela malfadada refilmagem dirigida por Tim Burton em 2001 (foi a primeira vez que se usou a palavra “reinvenção” como um eufemismo para mudar tudo da obra original) – o final aberto vai ter um sabor interessante.

Planeta dos Macacos – A Origem. Rise of the Planet of the Apes. EUA, 2011. Direção: Rupert Wyatt. Elenco: James Franco, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton. Captura de movimento e voz: Andy Serkis.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

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