O homem, a graça, a natureza

Brad Pitt e a vida que basce: grãos de areia no infinito do universo

Pode-se debater muito sobre o que A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) é, mas sabe-se muito bem o que o filme não é: programa para quem quer apenas se distrair duas horas numa sala escura. É cinema para prestar atenção e mergulhar fundo, sem se deixar abalar pelos desafios que ele propõe ao espectador.

E são muitos. A Árvore da Vida, para começar, aposta admiravelmente em seu público. Não faz concessões em uma primeira lenta e difícil, onde há diálogos existenciais com Deus, cenas abstratas que – depois se percebe – são uma versão do surgimento do universo, e a informação de que o filho de um casal morreu.
Este casal é Brad Pitt e Jessica Chastain, vivendo no Texas dos anos 1950, com três filhos. Um deles aparece no presente, interpretado por Sean Penn: e é um homem visivelmente triste.

O cineasta Jorge Furtado disse certa vez que a diferença entre TV e cinema é que, na TV, o programa precisa pegar o espectador na hora – senão, ele muda de canal. Já no cinema, o cineasta pode exigir um pouco da plateia – que pagou o ingresso e não vai sair de cara. É isso que A Árvore da Vida faz em seu muito extenso prólogo, apoiado em belas imagens (tanto paisagens paradas quanto ângulos e movimentos de câmera inusitados) e questionamentos filosóficos e religiosos. As sequências da criação do universo costuradas à trama parecem criar um diálogo indagando a importância das vontades desses grãozinhos de areia (que somos nós) diante do infinito universal.

O momento da virada é o nascimento do personagem principal: Jack. Malick não se sente obrigado a ser literal: ele faz poesia com as imagens, colocando um garoto tentando sair de dentro de uma casa inundada como a metáfora do parto. E, em seguida, uma série imagens tão belas quanto cotidianas significam a descoberta do mundo para a criança, sensação que ele tenta fazer com que compartilhemos. O novo grãozinho de areia é o centro das atenções.

O filme parece ser sobre essa descoberta, em níveis diferentes. As imagens da primeira parte, por exemplo, podem querer nos apresentar o mundo, que está ali, sempre esteve, mas passa despercebido por nós diariamente. Como com o bebê, Malick talvez nos dê a oportunidade de ver esse mundo como se fosse a primeira vez.

Na pré-adolescência, o garoto descobre sensações terríveis com as quais deve lidar. A rivalidade entre irmãos (sendo um deles o preferido), a insatisfação com o pai severo. A natureza de querer que eles não estivessem ali, contra a graça de aceitar os infortúnios e ser essencialmente bom.

O caminho da natureza e o caminho da graça – uma escolha apresentada logo no começo do filme. O pai (lutando para sobreviver com as armas que tem, pregando que não se vai a lugar algum sendo íntegro e achando certo educar os filhos pela violência psicológica) é a natureza e a mãe (que acha que o importante é apenas ser bom, mesmo sob o risco da ingenuidade) é a graça. Em certo momento, o filho diz que o pai e a mãe brigam dentro dele.

É um conflito que existe em todos nós e que A Árvore da Vida mostra de maneira enigmática. Isso está na cena final, de novo fugindo do realismo (e lembrando o de Fellini), onde passado e presente se misturam. Não é um passatempo. É uma experiência – que pode agradar ou não, mas é algo que toca mais fundo do que o que costuma se ver por aí.

A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011). Direção: Terrence Malick. Elenco: Brad Pitt, Hunter McCracken, Jessica Chastain, Sean Penn, Fiona Shaw.

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