O mundo prefere Marilyn

Jane e Marilyn: se virando em um mundo masculino

Howard Hawks foi um diretor conhecido por narrar histórias bem masculinas: profissionais do perigo que se esmeram em cumprir o que devem fazer não importando a adversidade. Era o mundo de Hawks, ele próprio um aventureiro (foi aviador antes de ser cineasta e era amigo de Ernest Hemingway, com quem caçava e pescava). A mulher, nessas histórias, tinha que mostrar força própria e entender que a missão deve ser cumprida. Tendo isso em vista, poderia parecer estranho que ele comandasse um musical como Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, Estados Unidos, 1953), com duas mulheres liderando de longe a ação: Jane Russell e Marilyn Monroe.

Poderia, para quem não conhecesse a carreira de Hawks. Primeiro, porque ele se dividia quase igualmente entre aventuras dramáticas e comédias das mais malucas possíveis. Para cada Paraiso Infernal (1939) e Rio Vermelho (1948) havia um Levada da Breca (1938) e O Inventor da Mocidade (1952). E segundo porque as mulheres do filme não deixam de estar no conceito sob o qual Hawks gostava de mostrar o sexo feminino.

Ainda antes dos créditos, Dorothy Shaw (Jane) e Lorelei Lee (Marilyn) fazem um número musical no palco para uma plateia que não vemos – na prática, somos nós. A música fala de uma garota que teve uma decepção com um homem, tem razões para acreditar que todos são iguais e, agora, resolveu ser prática e procurar um milionário.

Quando um musical coloca um número no palco, a letra não precisa ter relação direta com a história. Mas esta é uma declaração de intenções – e bem mais de Lorelei do que de Dorothy, já que a personagem de Marilyn é a que não esconde em tempo algum que o casamento com um ricaço é sua prioridade na vida. Ela tem um noivo (rico), mas o pai dele é contra. Quando as duas amigam embarcam em um navio para Paris, um detetive (Charles Coburn) vai junto para descobrir se Lorelei é honesta ou não.

A maior parte da trama se passa, então, a bordo. Por um lado, Lorelei começa a se engraçar com um velho milionário que dá mais presentes do que deveria. Por outro, Dorothy se diverte com a equipe olímpica americana – sua filosofia põe os músculos acima do dinheiro (é direta como um Cary Grant ou um John Wayne de outros filmes de Hawks). E, enquanto isso, as duas tentam se desvencilhar no abelhudo detetive.

As garotas, como em outros filmes do diretor, precisam se virar em um mundo masculino, que não quer lhes dar vez. Nesse ponto e na hora H, a lógica de Lorelei é desconcertante – e isso inclui tanto o antológico número “Diamonds are a girl’s best friend” quanto o embate final com o futuro sogro. Ela e Dorothy (que trata os homens como objeto) dobram essa sociedade masculina.

Mas isso tudo aparece como pano de fundo de uma diversão leve, com diálogos espertos. O filme é baseado no livro de Anita Loos, que mostrava garotas praticando o esporte de correr atrás de caras ricos na Era do Jazz, e atualiza a ação (para, então, os anos 1950).

Hawks já havia trabalhado com Marilyn como coadjuvante em O Inventor da Mocidade, e, pelo jeito, sabia de seu potencial. Com o filme, a atriz definitivamente virou estrela de primeira grandeza. Era o segundo nome do elenco, mas, por melhor que Jane Russell estivesse (e ela tem momentos ótimos), Marilyn domina o filme e consagra sua persona com frases como “Eu posso ser esperta quando é importante, mas a maioria dos homens não gosta”.

A bem da verdade, 1953 foi o grande ano de Marilyn em sua ascensão para o estrelato. Esteve em Torrentes de Paixão e em Como Agarrar um Milionário no mesmo ano. Deveria ter sido de Betty Grable o papel de Lorelei, mas a Fox preferiu apostar em Marilyn, muito mais em conta. E ela também ganhou bem menos que Russell, que era um símbolo sexual estabelecido desde o escandaloso faroeste O Proscrito (1943).

Mesmo como o segundo nome nos créditos de Os Homens Preferem as Loiras, bem, Marilyn é a loura – não Jane Russell. Se tudo o mais falhasse, ainda haveria “Diamons are a girl’s best friend” para tornar Marilyn imortal. É esta cena, bem mais que a do vestido levantado pelo vento do metrô em O Pecado Mora ao Lado (1955), que mostra por que o mundo a preferia.

Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, Estados Unidos, 1953). Direção: Howard Hawks. Elenco: Marilyn Monroe, Jane Russell, Charles Coburn, Tommy Noonan, George Winslow.

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