A mulher que desestabiliza

Bala e Dora: ela bagunça o sistema dos garotos

Escalar atores não profissionais para protagonizar um filme é sempre um risco. Presume-se que a direção já conte com uma possível perda de naturalidade nos personagens que vão aparecer diante da câmera. Às vezes, dá (muito) certo, caso tanto de clássicos do neorealismo como Ladrões de Bicicleta (1948) quanto do nosso Cidade de Deus (2002). Em Capitães da Areia (Brasil, 2011), de Cecília Amado, fica claro que o jovem elenco ainda pode melhorar.

Mas isso não desmerece o filme dirigido pela neta de Jorge Amado, que tem seus problemas, mas termina com saldo positivo. A direção e os jovens protagonistas ainda conseguem imprimir personalidade em cada um dos personagens – fundamental para manter o interesse.

Esse quase Oliver Twist brasileiro é dividido em duas partes bem evidentes. A primeira apresenta os garotos que, vivendo na rua, unidos e organizados em um grupo, praticam roubos em Salvador. A hierarquia (eles são liderados por Pedro Bala – Jean Luis Amorim – e seu braço direito, o Professor – Robério Lima) e o funcionamento do grupo, os elementos de tensão entre eles, são os elementos dessa primeira parte, que demora a engrenar.

A entrada de Dora (Ana Graciela) muda a história e dá início à segunda metade. Só no mundo com o irmão depois de ter perdido os pais, acaba acolhida pelos capitães da areia e coloca novas situações no tabuleiro. O filme melhora muito depois disso, ganhando ritmo e emoção.

Mas isso só acontece mesmo porque o público sabe o quer, como pensa e o que deseja cada um dos personagens – acredite, esse “básico” não é pouco. O caráter episódico da trama e o carisma dos personagens (mesmo com as limitações circunstanciais do elenco) valem mais do que as belas imagens – um seriado com outras aventuras de Pedro Bala, Dora e seus companheiros não seria de se estranhar.

Capitães da Areia (Brasil, 2011). Direção: Cecilia Amado. Elenco: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Zéu Britto.

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