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Filhos da revolução

Vladimir entrevista Renato Russo em 1988: faro

Durante a preparação de Rock Brasília (Brasil, 2011) e sua apresentação nos festivais, Vladimir Carvalho disse várias vezes as ligações que têm com o rock: que assistiu a Sementes da Violência (de 1955, com música de Bill Haley and His Comets) quando era garoto, que acompanhava o irmão mais novo Walter a bailes e concursos e que usou algumas vezes o gênero como trilha de seus documentários. Ainda assim, impressiona a maneira exemplar como o diretor paraibano conta a história das bandas de Brasília que estenderam as fronteiras do rock brasileiro dos anos 1980 além do eixo Rio-São Paulo.

Essa história é, principalmente, contada através (e bem mais do que pela música em si) dos depoimentos dos integrantes das três principais bandas brasilienses do período – Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Hoje e em entrevistas realizadas ainda em 1988, uma demonstração de faro apurado do documentarista, que registrou o momento sabendo que havia alguma coisa ali, embora não muito bem o quê.

Também falam os pais e familiares dos músicos, depoimentos que se mostram fundamentais para que o contexto seja estabelecido e para que Vladimir leve o filme a outra dimensão: não é só a história do rock ou daqueles caras, mas também uma história da própria Brasília – em anos fundamentais do Brasil, com a ditadura agonizante (mas ainda mostrando os dentes), a campanha pelas eleições diretas, a euforia e frustração do Plano Cruzado.

Vladimir percebeu alguma coisa naquela manifestação jovem e se pôs a gravar entrevistas que se revelaram uma cápsula do tempo. O pessoal das três bandas e mais o Paralamas do Sucesso falam de suas intenções musicais e da relação com a cidade. O cineasta tem, ainda, o apoio de uma entrevista de Renato Russo para a MTV e imagens da Globo.

Chama especialmente a atenção a entrevista que Vladimir faz com Renato Russo. O filme não diz, mas é um dia antes do quebra-quebra histórico no show do Legião Urbana, na volta à cidade após dois anos fora. O show é uma sequência assustadora, montada brilhantemente, mostrando passo a passo como o que se esperava ser um grande momento para Brasília se tornou um caldeirão fervente que acabou entornando.

Como já havia feito em O Engenho de Zé Lins, Vladimir encena algumas pequenas situações, mas sempre na medida para não exigir delas muita dramaticidade – apenas para compor um cenário, uma atmosfera, que é o caso das cenas no Lago Paranoá, sob um texto escrito e lido por Dinho Ouro Preto.

A dramaticidade está, principalmente, nos relacionamentos entre os pais – professores, diplomatas – e os filhos, famílias de classe média que viram surgir nos pátios das superquadras os punks e pós-punks que geraram a cena rock da capital, os filhinhos de papai que resolveram cantar sobre – entre outros assuntos – política, com o dedo em riste. Há muito humor, também, nas peripécias juvenis da turma, dosando as tensões dos esbarrões com a polícia e o exército.

Vladimir Carvalho consegue ir além de apenas relatar uma curiosidade e extrai um sentido geral da história desses jovens músicos – que tiveram destinos diferentes, sejam morte, dissolução definitiva ou não desta ou daquela banda ou o retorno ao sucesso.

Na verdade, mais de um sentido. É a história do divórcio deles com Brasília (simbolizada pelo caótico show do Legião em 1988) e uma espécie de reconciliação anos mais tarde. E também a saga dessas famílias – pais e filhos – também com seus pequenos ou maiores divórcios e reconciliações diários. A cena final, mais emotiva do que costumam ser os filmes de Vladimir Carvalho, reflete isso perfeitamente.

Rock Brasília (Brasil, 2011). Direção: Vladimir Carvalho.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba, em 25 de outubro.

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