Mosqueteiros quem?

D'Art... Quer dizer, Milady e os três mosqueteiros

Não dá nem para contar quantas versões existem da obra máxima de Alexandre Dumas – a primeira, segundo o IMDb, data de 1903. Mas vai ser difícil encontrar alguma tão disparatada quanto este novo Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, EUA, 2011). Pouca coisa restou da obra original, mas o problema nem é esse: é que, o que mudou, mudou para pior, e o que restou foi “adaptado” para se tornar o mais simplório possível.

Claro, a desculpa será sempre atender ao gosto jovem atual. Por isso, o 3D, mais explosões e tiros do que todas as versões anteriores somadas e multiplicadas por elas mesmas, câmeras lentas como “estilo” em cena de ação, e uma mulher que luta, claro, como um homem (a ucraniana Milla Jovovich, esposa do diretor Paul W.S. Anderson e que se especializou nesse tipo de coisa na série Resident Evil). Tudo da maneira mais “fácil” e dentro da receitinha possível.

Na prática, Os Três Mosqueteiros é um filme que em nenhum momento parece acreditar que pode ser um bom filme de… bem, mosqueteiros. Sempre quer ser outra coisa. Começa defendendo a ideia que os mosqueteiros eram os James Bonds da França do século XVII, depois macaqueia as tumbas secretas dos filmes de Indiana Jones e mais à frente mostra que a ideia é ser mesmo um novo Piratas do Caribe, por mais absurdo que isso soe. Termina sem identidade alguma.

Se, a despeito de todas as diferenças possíveis, ainda formos comparar, Piratas ao menos tem Johnny Depp e seu Jack Sparrow. Não há qualquer equivalente de carisma visível neste Os Três Mosqueteiros. Christoph Waltz é evidentemente o melhor ator do filme, mas seu Cardeal Richelieu é tão maltratado quanto os personagens a cargo dos muitos atores inexpressivos.

Matthew Macfayden, como Athos, é o único que consegue algum registro, mas o roteiro simplesmente não o ajuda, nem a Waltz. Os outros dois mosqueteiros, assim como o D’Artagnan de Logan Lerman (protagonista do também péssimo Percy Jackson e o Ladrão de Raios, 2010), passam longe de marcar presença.

Milla Jovovich está linda como sempre e uma atriz sofrível como sempre. Mas, como toda a atenção que o filme lhe dá, acaba se impondo contra, por exemplo, a apagadíssima Constance da inglesa estreante Gabriella Wilde. A Milady de Milla Jovovich, transformada em superagente secreta, saltando de bungee jumping do alto do Palácio de Versalhes, é, no entanto, apenas o sintoma mais evidente de quão errado esse filme é desde sua gênese.

O filme utiliza alguns elementos da história original, mas sempre adaptando para pior, de maneira muito mais rala. O Duque de Buckingham, primeiro-ministro inglês, está lá, por exemplo. Mas ao invés da situação conflituosa de estar apaixonado pela rainha da França em meio às tensões políticas entre as duas nações, o personagem foi transformado em um vilão genérico, à mercê da interpretação de Orlando Bloom, que não vai além da mera caricatura.

Não é por ter sido denso que Alexandre Dumas se tornou um ícone literário. Mas esse Os Três Mosqueteiros (dirigido, não por acaso, pelo cineasta de Mortal Kombat, Resident Evil e Aliens vs. Predador) faz o livro original parecer Dostoiévsky.

Os Três Mosqueteiros (The Three Musketeers, Alemanha/ Fraça/ Reino Unido/ Estados Unidos, 2011). Direção: Paul W.S. Anderson. Elenco: Milla Jovovioch, Matthew Macfayden, Christoph Waltz, Logan Lerman, Orlando Bloom, Luke Evans, Ray Stevenson, Freddie Fox, Gabriella Wilde.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba

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