½

Identidade da comédia

Sélton Mello e Paulo José: com toda a reverência

Os grandes comediantes da história sempre souberam que um palhaço tem muito potencial para o drama, nessa antítese entre rir e chorar. Charles Chaplin, o maior dos cômicos, pautou a maior parte de sua carreira sobre esse aspecto. Outro ícone, Buster Keaton, não dava um sorriso sequer nos filmes que fazia. E até Renato Aragão soube tirar lágrimas em vez de risos, quando quis. Sélton Mello certamente inspirou-se em alguns deles (provavelmente em todos) para O Palhaço (Brasil, 2011).

Ele interpreta Pangaré (sem a maquiagem, Benjamin), que faz o número com o pai, o veterano palhaço Puro-Sangue (Paulo José). Ele também gerencia o paupérrimo circo com que cruza o interior (no momento) de Minas. É também um filme de época: apesar de não dizer claramente, por alguns detalhes dá para ver que a trama de passa em algum ponto dos anos 1970 ou começo dos 1980.

Como Buster Keaton, Pangaré é um palhaço que não sorri – ou, no máximo, sorri raras vezes. Dentro ou fora de cena. Em crise de identidade, ele começa a pensar em fixar residência e conseguir um emprego mais “tradicional”. Essa crise tem uma metáfora bastante clara no filme, que é a necessidade prática de tirar identidade, CPF e comprovante de residência. E um simbolismo mais cifrado, que é os ventiladores que “assombram” Benjamin.

Extremamente bem amarrado, O Palhaço é enriquecido por outros desses símbolos. Um deles é a maneira solene (solene à moda de um palhaço, pelo menos) com que Puro-Sangue é anunciado (o que também demonstra toda a reverência de Sélton ao grande e histórico ator Paulo José). E há a pequena Larissa Manoela, testemunha silenciosa dos dramas e comédias do filme, e que guarda um simbolismo em si mesma: a do futuro da arte circense, algo que o próprio Benjamin já representou um dia.

Também não é por acaso que Jorge Loredo está onde está. Outro ator que Sélton Mello admira muito, o eterno Zé Bonitinho faz participação como um personagem a princípio carrancudo, mas que tem importância fundamental no filme quando Benjamin o vê contando uma piada. Um piada contada por um humorista de profissão que interpreta um homem “sério” para um ator que interpreta um palhaço (no momento) sem maquiagem. De um palhaço para o outro.

Mello tem um ótimo olhar para colher grandes atores que o cinema brasileiro nunca soube aproveitar. Loredo é um caso, e Moacyr Franco é outro. Franco está absolutamente impagável como um delegado. Só tem uma cena, e é enquadrado de uma única maneira: de frente, sentado atrás de uma mesa. E dá um show que, sozinho, já pagaria o ingresso de O Palhaço. Mas o filme tem muito mais do que isso: é uma realização engraçada e melancólica, absolutamente admirável.

O Palhaço (Brasil, 2011). Direção: Sélton Mello. Elenco: Sélton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Hossen Minussi, Maíra Chasseraux, Thogun, Fabiana Karla, Jackson Antunes, Tonico Pereira, Moacyr Franco, Jorge Loredo, Tony Tonelada, Danton Mello, Ferrugem, Emilio Orciollo Neto.

* Versão estendida de crítica publicada no Correio da Paraíba.

Anúncios