Entrevistei Rita Lee pela segunda vez na semana anterior ao show que ela fez hoje de madrugada. Foi por e-mail como há anos ela costuma responder às entrevistas, mas parece que ela está falando com você ao vivo. Confira abaixo o texto publicado no CORREIO de ontem.

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"Acho terapêutico escrever o que dá na telha"

“Eu achava muito chato fazer aniversário no ano novo, até que comecei a fazer shows”, diz a cantora Rita Lee, que faz o principal show do réveillon em João Pessoa. Ela, que nasceu em um 31 de dezembro, se apresenta após os fogos da virada do ano. A noite começa com grupo de cultura popular que se apresentam a partir das 18 horas. Por volta das 22 horas, Antônio Nóbrega sobe ao palco. Depois do show de Rita, a Orquestra Sanhauá continua animando o público com seu frevo até o amanhecer. A cantora conversou com o CORREIO por e-mail, como costuma dar entrevistas. “Descobri uma maneira super divertida de passar a data”, conta ela. “Tenho entrado todos os anos fazendo shows, cada vez num canto do Brasil”.

Sem lançar um disco de inéditas desde 2003, com o Balacobaco, Rita não tem, no show ETC…, a “obrigação” de divulgar um novo trabalho. O público pode esperar, principalmente, os grandes hits da, como uma vez chamou João Gilberto, “roqueira com voz de bossa nova”. “Quando saio pra estrada numa turnê, não há nada fixo: músicas, luz, figurino, tudo muda”, diz a cantora. “Temos muita bagagem musical e, de repente, me dá na telha de mudar o repertório, tiro e ponho músicas conforme o humor do dia, mas sei que o público que vai me ver espera ouvir os hits mais populares”.

A animação já começou no twitter, onde Rita pediu aos fãs pessoenses que escolhessem entre duas músicas para o show: “Atlãntida” ou “Amor e sexo” – aparentemente, deu a segunda. Também perguntou se era certeza que ela não precisaria trazer casaco na mala, caso o frio de São Paulo aportasse aqui. Casaco em João Pessoa, onde já se viu?

Rita é assídua no twitter (onde assina como @LitaRee_real), onde dá vazão a suas opiniões e delírios e conversa com os fãs – mas sem tratá-los com qualquer tipo de condescendência. Já teve aborrecimentos que a fizeram abandonar temporariamente a rede social – principalmente quando criticou o futuro estádio do Corinthians, no afastado bairro paulista de Itaquera. Mas ela acabou voltando. “Eu me vicio fácil, fácil… E acho terapêutico escrever o que dá na telha”, diz.

Ela afirma que não tem qualquer preferência no seu repertório. “Música é que nem filho, não tenho preferência”, conta. “Não sou saudosista e, depois que gravo um disco, nunca mais escuto”. Curiosamente, ela anda sem paciência para música cantada. “Quando não estou na estrada, no meio da loucura, vivo enfurnada em casa e só tenho saco para escutar música instrumental, das clássicas às eletrônicas”, revela. “Ando cansada da palavra falada e cantada, dos discursos, portanto não posso dizer que tenho acompanhado o que está rolando de mais atual. Só sei que o rock dança conforme os tempos e que tem muita meninada bacana no pedaço, é bom ficarmos antenados”.

Mas a intimidade de Rita Lee não está só nas canções. Nos anos 1980, ela escreveu uma série de livros infantis, Dr. Alex, uma face que muita gente desconhece. “Quando meus meninos eram pequenos escrevi quatro livrinhos sobre as aventuras do Dr. Alex, um ratinho que fugiu do laboratório para defender o direito dos animais”, lembra. A série há muito tempo não ganha um novo volume. Em tempos em que até Madonna está escrevendo livros infantis, ela não pensa em retomar a literatura? “Talvez ele volte a dar as caras agora, com minha neta Ziza”.

Um disco novo de inéditas é mais certo de aparecer em 2012. Rita vem trabalhando em dois projetos simultâneos: este, ainda sem nome, que terá a participação de Igor Cavalera; e Bossa’n’Movies, com regravações de canções que marcaram o cinema. “Estamos finalizando, vamos lançar no próximo ano”, confirma. Ela também pediu sugestões no twitter sobre o que cantar, mas não adianta o repertório. “Por enquanto, surpresa”.

Para o show da madrugada, a surpresa não é tanta: o público pode esperar sucessos como “Ovelha negra” e “Lança perfume” entre tantos outros. O reencontro com o público pessoense depois de dez anos – o último show dela por aqui foi em 2001, no Espaço Cultural – tem tudo para ser um presente de aniversário para ela e um belo começo de ano para os pessoenses.

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