Mudo, em preto-e-branco, francês e com a mão no Oscar

Pra começar, ainda não vi O Artista. O filme não entrou em cartaz em João Pessoa e estou indo a Recife neste domingo para conferi-lo na tela grande, como acho que tem que ser.

Mas eu não preciso assisti-lo para saber que ele é provavelmente o vencedor do Oscar na noite de hoje. Escrevo logo após saber que ele ganhou mais um: o César de melhor filme e outros cinco, incluindo diretor e atriz. O César, como sabemos, é o Oscar francês (nacionalidade do filme).

E ganhou também, na mesma noite, o Independent Spirit Awards, para os filmes independentes. O Bafta, que é o Oscar britânico, também se rendeu a O Artista no dia 12. Foram sete prêmios. E assim foi nos DGA, onde Michel Hazanavicius superou Martin Scorsese, e nos SAG, onde Jean Dujardin deixou George Clooney para trás. No Producers Guild Awards, deu O Artista também.

A essa altura, importa cada vez menos se o filme é francês – e será o primeiro francês a ganhar um Oscar de melhor filme. Curiosamente, isso reafirma que – como acontecia no cinema pré-som – o cinema mudo é uma linguagem universal.

Mas, se tudo parece bem claro no que diz respeito a melhor filme, será que Hazanavicius ganha como diretor? Ele parece ser o favorito a esta altura. Ganhou o DGA (prêmio do sindicato dos diretores), que só não coincidiu com o Oscar da categoria seis vezes na história.

A última foi em 2001, premiando Ang Lee por O Tigre e o Dragão, e o Oscar indo para Steven Soderbergh, por Traffic. Será o ano de acontecer de novo? Eu acho que Scorsese não está fora da briga por sua brilhante declaração de amor ao cinema em A Invenção de Hugo Cabret.

Tem gente que acha que George Clooney ainda é o favorito para melhor ator por Os Descendentes. Não é o meu caso. Jean Dujardin tem ganho cada vez mais prêmios por sua interpretação em O Artista. Começou em Cannes, no ano passado, e chegou até o SAG e o Spirit. Curiosamente, perdeu o César, em casa, mas não foi para Clooney.

Para melhor atriz, uma boa briga. Num ano de grandes interpretações femininas, Meryl Streep chegou à sua 17ª indicação e faz tempo que não tem tanta chance de vencer quanto agora. Ela simplesmente desaparece por baixo de sua atuação como Margaret Tatcher em A Dama de Ferro. Pode ser que pese o fato de que, na prática, ela não ganha um Oscar há quase 30 anos – o segundo e até agora último foi o por A Escolha de Sofia, em 1983. Dois é pouco para Meryl, uma das melhores atrizes da história. E três não é demais.

Mas Viola Davis, na interpretação forte e contida de Histórias Cruzadas, é tida como favorita por muita gente. Meryl ganhou o Globo de Ouro, mas Viola levou o prêmio do Sindicato dos Atores (votada por muita gente que também vota no Oscar). Meryl levou o Bafta, Viola o Critics’ Choice Awards. Ou seja, o páreo está duro. Eu aposto em Meryl, mas é bem mais um torcida que qualquer outra coisa.

Nos coadjuvantes, ao contrário, será uma grande surpresa se Christopher Plummer e Octavia Spencer não vencerem.

Woody Allen é favorito para a categoria de roteiro original, por Meia-Noite em Paris, mesmo com O Artista no páreo também aí. Em roteiro adaptado, pode vir aí a única indicação para Os Descendentes, derrotando Hugo Cabret. Os filmes independentes costumam ganhar aí, como Preciosa, em 2009, Onde os Fracos Não Têm Vez, em 2008, e Sideways, do mesmo Alexander Payne, em 2004.

Assim como Guerra ao Terror, em 2009, Juno, em 2007, e Pequena Miss Sunshine, em 2006, levaram o de roteiro original. Os Descendentes não é bem um filme independente, mas é de Alexander Payne.

Eu diria que A Separação é favorito absoluto em filme de lígua não inglesa. Mas não dá pra confiar. A comissão que escolhe os vencedores desta categoria é imprevisível. Já tivemos francos favoritos que perderam: em 2006, quando todo mundo esperava a consagração de O Labirinto do Fauno, deu A Vida dos Outros; em 2008, A Partida ficou com o prêmio que todos esperavam ir ou para O Complexo Baader-Meinhof ou Valsa com Bashir; e em 2001, Terra de Ninguém ficou com o Oscar em vez de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Este ano, Ana Maria Bahiana chama a atenção para In Darkness, de Agnieska Holland, mais uma incursão da diretora polonesa pelos dramas do Holocausto (tema tão caro à Academia). Ela já concorreu em 1985, por Colheita Amarga e por roteiro adaptado em 1991, por Filhos da Guerra.

E no prêmio de Filme de animação, ainda não refeitos do choque de ter As Aventuras de Tintim e Rio fora da lista enquanto bobagens como Kung Fu Panda 2, Gato de Botas e Rango foram indicadas, é meu dever dizer que as fichas estão todas indo para Rango.

Não sei dizer o motivo, visto que não achei lá essas coisas quando o assisti e muitos dos elogios foram surpresa para mim. Meu coração está com os dois indicados europeus: Um Gato em Paris e o espanhol Chico y Rita, que ainda não assisti, mas que tem um trailer e tanto.

Bom, é isso, no que diz respeito às categorias principais. O Correio deste domingo traz um guia completo que preparei sobre o prêmio, com todos os indicados. E não deixem de participar do bolão aqui do blog. A gente acerta as contas depois do prêmio.

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