Silêncio eloquente

Jean Dujardin e Bérenice Bejo: representações perfeitas do cinema de um outro tempo

Para quem não espera do cinema mais do que um bom passatempo, a boa notícia: O Artista (The Artist, França/ Bélgica, 2011) é plenamente assistível por quem nunca viu um filme mudo na vida e nunca se interessou por algum. É divertido, é emocionante, é lindo visualmente. Agora, para quem ama o cinema, a notícia para valer: O Artista é um gol de placa, um deleite, um acerto em todos os níveis.

O que faz do filme de Michel Hazanavicius algo especial é que ele escapa olimpicamente de ser apenas uma brincadeira metalinguística com o estilo do cinema mudo. Ser mudo é a razão de ser narrativa do filme, faz todo o sentido não se ouvir vozes.

Isso porque o filme gira em torno do astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin), que desdenha do cinema sonoro quando ele irrompe no horizonte, no final dos anos 1920. Nessa época, muitos galãs e estrelas perderam o emprego por causa das vozes fanhosas ou esganiçadas (como aparece, de maneira engraçadíssima, no clássico Cantando na Chuva), mas não é o caso de Valentin.

O astro não se integra ao cinema falado porque se recusa. Acha que é uma violência com sua arte. É uma resistência parecida com outra que existiu de verdade: a de Charles Chaplin. O gênio do cinema ainda faria dois filmes sem diálogos (ambos antológicos: Luzes da Cidade, de 1931, e Tempos Modernos, de 1936) até finalmente resolver falar na tela, em 1940 (com O Grande Ditador).

Mas Chaplin era Chaplin: além de ser o homem mais famoso do mundo, era dono de seu próprio estúdio – podia aguentar o tranco. Valentin, ao contrário, paga caro por sua opção. Numa cena, ele se encontra em uma escada com Peppy Miller (a argentina Berenice Bejo, esposa do diretor, excelente), atriz iniciante no cinema, que entrou por ramo até por acaso, mas que está ganhando rapidamente popularidade. Ele está descendo os degraus, ela subindo. É um simbolismo até bastante evidente, mas isso é contar uma história visualmente e é dessas coisas que os grandes filmes são feitos.

É importante lembrar que o som está em evidência em diversos momentos de O Artista. O filme dialoga o tempo todo com o seu assunto e modo de contá-lo. Numa analogia de novo bem evidente, o filme já começa com o astro Valentin interpretando um herói sob tortura que grita (aparecendo nas cartelas): “Não vou falar!”.

É a estreia de seu novo filme, e, atrás da tela, ele aguarda o final e a reação da plateia. Nada se ouve, mas por sua expressão, sabemos o som que está ouvindo. A cena da plateia batendo palmas no completo silêncio causa propositalmente um leve desconforto, um choque silencioso a um público bem desacostumado ao silêncio (já perceberam como há filmes hoje em dia cuja trilha sonora tem música o tempo inteiro?).

Isso sem falar na já antológica cena de sonho, em que Valentin é confrontado  com o som, mas não consegue exprimir sua voz. Em outro momento, a ascenção de Peppy Miller é simbolizada por uma sequência de imagens ao som de uma canção, cantada mesmo: “Pennies from Heaven”, na gravação de Rose Murphy de 1936. E lá na sequência da estreia, no começo do filme, não é à toa que Valentin faz uma brincadeira com o sapateado – uma dança que não faz sentido sem som. É algo que vai implicar com graça e inteligência, bem mais à frente, na passagem para o desfecho do filme.

Desfecho, aliás, que é atencedido pelo uso inesperado da música de Bernard Herrmann para Um Corpo que Cai (1958), de Hitchcock. Uma nova significação que não deixa de ser uma homenagem à expressão da música no cinema. E entre ela e o desfecho, o silêncio total para um momento chave, de resoluções e de transição.

A vitória acachapante no Oscar (cinco, incluindo melhor filme, direção e ator) é muito significativa, enquanto ainda tem gente que afirma que o 3D é o futuro do cinema. A consagração de O Artista mostra que cinema ainda é muito mais do que efeitos especiais. E isso não quer dizer que efeitos especiais sejam ruins em si mesmos – A Invenção de Hugo Cabret está aí para provar que até o 3D tem salvação.

Talvez O Artista, usando a falta de voz e ruídos e abdicando de cores, mostre que, na instância mais fundamental, a maneira de contar a história é que seja o grande efeito especial. Ou seja, em outras palavras, o cinema é o melhor efeito especial de si mesmo.

O Artista (The Artist, França/ Bélgica, 2011). Direção: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Bérenice Bejo, James Cromwell, John Goodman, Penelope Ann Miller, Malcolm McDowell.

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