Cantando na Chuva foi o filme que mudou a minha vida, sem exagero. Eu já gostava de cinema um pouco, graças a um guia de vídeo da Nova Cultural (quem lembra?), que me fisgou e comecei na ler, mesmo sem conhecer 10% dos filmes ali. Aí, no reveillón de 1987 para 1988 (ou de 1986 para 1987, não lembro bem), minha família foi a uma festa e resolvi ficar em casa.

Sozinho, acabei assistindo ao primeiro filme quie a Globo exibiu naquele ano, logo após a meia-noite: justamente Cantando na Chuva. Lembram que, naquela época, a Globo sempre programava um filmaço como primeiro do ano? O Mágico de Oz, A Noviça Rebelde… Em 2001, foi 2001 – Uma Odisséia no Espaço.

Enfim, foi uma revelação. De repente, percebi que poderia haver um mundo de filmes como aquele: empolgantes, divertidos, inteligentes, engraçados, charmosos e, crucial, não imp0rtando a época em que foram feitos. Pelo contrário, os anos a mais poderiam até aumentar seu charme.

Nem terminei de ver o filme aquela madrugada. Meus pais chegaram antes de acabar e me fizeram desligar a TV e ir dormir. Eram outros tempos, você sabe: mesmo que você tivesse um video cassete (não era tão comum assim naquela época e nós não tínhamos), simplesmente não se tinha o filme em casa como se tem hoje com o DVD, o blu-ray e os arquivos digitais. A gente dependia da sorte do filme passar na TV ou ir a uma locadora (e, no meu caso, contar com a boa vontade de algum amigo que tivesse um vídeo).

Não lembro em que condições eu vi o filme por inteiro a primeira vez. Sei que vi muitas vezes depois. Lembro que em 1997 eu ainda contava e já tinha visto mais de 20 vezes.

Ainda hoje, Cantando na Chuva é meu filme preferido. Para isso, basta o filme em si, com seus números musicais deliciosos, seu elenco incrível, seus diálogos engraçadíssimos, a super Jean Hagen como Lina Lamont, as brincadeiras com o mundo do cinema (e, particularmente, nesse momento definitivo que foi a passagem do cinema mudo para o sonoro), Gene Kelly e Donald O’Connor no auge e a em-bas-ba-can-te Cyd Charisse.

Por causa dele, descobri os clássicos de Hollywood, que me abriram as portas e apontaram os caminhos a outros estilos e procedências: europeus, asiáticos, novos, mudos, coloridos e em preto-e-branco. Com ele, aprendi a arriscar com inteligência: saber que o desconhecido pode esconder uma pérola, mas também que aqueles que fazem um filme têm uma história que, se conhecermos, nos levam a apostar ou não neles.

Minha matéria no Correio (e o adendo dos 10 anos sem Billy Wilder)

Bom, o filme fez, dia 27 passado, 60 anos de sua pré-estreia em Nova York. Fiz uma matéria que saiu no Correio da Paraíba e convidei amigos críticos, além do escritor Ruy Castro, a comentar o filme, dizer o que faz ele ser tão especial. A matéria, em versão estendida, segue abaixo. Comentam os amigos Carlos Alberto Mattos, do Rio, José Geraldo Couto, de Florianópolis, Marcelo Miranda, de Belo Horizonte, e João Batista de Brito, aqui de João Pessoa.

Em tempo, o blog do Estado de S. Paulo publicou um post sobre o filme e o resgate de uma capa do Caderno 2 de 1990, em que Ruy Castro comentou 29 curiosidades sobre o filme.

Ruy Castro escreveu sobre o filme para o Estadão em 1990

Segue a matéria do Correio, em versão entendida.

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Nos elogios a O Artista (2011), vencedor do Oscar deste ano, sempre é lembrado as semelhanças com Cantando na Chuva (1952). Isso mostra como o musical dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen continua sendo uma referência. Integrando muitas listas sérias dos melhores de todos os tempos, o filme teve sua primeira pré-estreia há exatos 60 anos, em Nova York.

“É curioso que, 60 anos depois, esse filme ainda inspire outro como O Artista”, diz o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, que, do Rio, escreve, entre outras, para a revista Filme Cultura. “As situações básicas são muito semelhantes, o que prova que o filme tocou num ponto nevrálgico da história do cinema”.

Tudo começa quando o produtor Arthur Freed resolve resgatar suas composições em parceria com Nacio Herb Brown, lançadas nos anos 1920. Convoca Adolph Green e Betty Comden para escrever um roteiro que encadeasse essas canções e o casal pensou em situar a trama na época em que as músicas foram produzidas. Daí, chegaram a 1927, ano em que O Cantor de Jazz inaugurou a era do cinema falado.

A equipe colheu histórias e lembranças de muita gente do estúdio que viveu aquela fase turbulenta (que, então, havia sido 25 anos antes). E Cantando na Chuva se tornou uma bem-humorada reconstituição de como Hollywood teve que se adequar ao som.

“É um dos grandes filmes em que o cinema – em particular o cinema industrial – pensa sobre si mesmo”, diz José Geraldo Couto que, de Florianópolis, escreve sobre cinema para a Carta Capital. “Um caso raro em que a técnica em seu mais alto grau (da dança, da cenografia, da música, da montagem, da atuação) está organicamente a serviço da emoção e da inteligência”.

Cantando na Chuva continua sendo, ao lado de Crepúsculo dos Deuses, o melhor ‘produto’ que Hollywood criou para falar de si mesma”, concorda Marcelo Miranda, crítico do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. “Sempre me chamou a atenção o fato de se tratar de um filme tão feliz, colorido e quase literalmente sorridente para falar de um momento tão delicado da indústria, quando artistas perderam o emprego e os estúdios estavam em desespero. O filme fala disso sob um viés muito otimista, ao mesmo tempo em que mantém um certo tempero agridoce em meio às danças e coreografias”.

As danças têm tanta importância que o astro Gene Kelly assina as coreografias e a direção, ao lado de Donen. Muito números ficaram célebres. “Além da batidíssima sequência do Gene Kelly com o guarda-chuva, eu gosto em particular daquela em que Donald O’Connor canta e dança ‘Make’em laugh’ no estúdio, contracenando com operários, cenários, móveis, escadas etc. Essa levanta até defunto”, diz Couto. “As músicas são inesquecíveis, Gene Kelly é um fenômeno de comunicação e a cena da chuva é como água para a sede dos cinéfilos”, complementa Mattos.

Mas nem sempre o filme teve o status que ostenta hoje – é o 5º melhor pela lista do American Film Institute (e o 1º entre os musicais, “Singin’ in the rain” foi a 3ª melhor canção…) 10º pela Entertainment Weekly, 8º pela inglesa Empire, 10º pela última eleição da também britânica Sight and Sound. Apesar do bom público, foi retirado de cartaz pouco depois do lançamento para dar lugar a uma reprise de Sinfonia de Paris (1951), que havia acabado de ganhar o Oscar. A Academia só o indicou em duas categorias: atriz coadjuvante (para Jean Hagen) e trilha sonora para musical. Donald O’Connor, pelo menos, ainda ganhou o Globo de Ouro de ator em comédia ou musical.

“Até os anos 1970, nenhum crítico ou historiador dizia que Cantando na Chuva era uma obra de arte”, lembra o escritor Ruy Castro, que não exerce a crítica de cinema, mas escreve muitos artigos sobre o assunto – um longo ensaio sobre o filme está em seu livro Um Filme É para Sempre. “Um dos motivos era o fato de que, desde os anos 1950, o filme não era reprisado. O outro é que a idéia de musicais ‘artísticos’ se referia a Sinfonia de Paris, que tinha Gershwin na trilha sonora e grandes pintores no cenário. Por sorte, essa visão ‘artistizante’ foi corrigida”.

Felizmente, isso mudou. A glória do filme pode ser conferida com toda justiça aos talentos que o produziram em DVD – e espera-se que a Warner lance a primeira edição em blu-ray ainda este ano.

Algumas curiosidades do melhor musical de Hollywood

– O sapateado de Gene Kelly, que estava com febre, aconteceu sob uma chuva artificial de água misturada com leite, para que fosse melhor captada pela câmera:

– A tórrida participação da até então coadjuvante Cyd Charisse no número “Broadway melody ballet” – usando uma peruca que evoca Louise Brooks e sem dizer uma palavra – a transformou em uma estrela da Metro:

– Jean Hagen é a inesquecível e engraçadíssima loura burra Lina Lamont, estrela do cinema mudo que tem sua carreira ameaçada pela própria voz esganiçada – na verdade, a atriz tinha uma bela voz: quando Debbie Reynolds dubla Jean Hagen no filme, ela está, na verdade, sendo dublada pela própria Jean Hagen! A atriz foi indicada ao Oscar de coadjuvante:

– Donald O’Connor arrasa dançando até com um boneco em “Make’em laugh”, música nova que Arthur Freed “chupou” de “Be a clown”, de Cole Porter – o número, em que o ator (fumante) usou todos os seus truques de vaudeville, o levou a ficar de cama por três dias,  exausto:

– Debbie Reynolds, 19 anos na época, sofreu para acompanhar Kelly e O’Connor – chorando, após Kelly ralhar com ela certa vez, acabou recebendo a simpatia de Fred Astaire, que a ajudou com as danças (eram dureza mesmo: reparem que são tomadas muito longas sem cortes):

– O’Connor e Kelly dividem o excelente número “Moses supposes”, um dos melhores momentos do sapateado na história do cinema. É o exemplo máximo do estilo Gene Kelly de dançar: atlético e brincalhão:

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