O terno não durou muitas músicas: Paul logo o tirou para enfrentar melhor o calor

“Vocês são cabras da peste!”, disse, acreditem, Paul McCartney para a plateia no domingo, segundo dia de seu show no Estádio Arruda, em Recife (o primeiro foi no sábado). Como nos shows do ano passado e de 2010 no país (no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre), o ex-beatle encantou o público não só com seus grandes sucessos, mas também fazendo questão de falar em português – e com expressões locais, para marcar suas primeiras apresentações no Nordeste.

“Povo arretado!”, ele começou falando tanto no sábado quanto no domingo. Na segunda noite, ele ainda fez outras referências. “Oxente!”, disse uma vez. “É o quê?”, brincou, com a expressão típica de quem não entendeu o que o outro falou. Surpreendeu de novo com um “Terra de Luiz Gonzaga!”. E ainda teve um “Muito arretado!”.

Veja bem: estamos falando do maior nome vivo da música popular, indiscutivelmente. Um sujeito com mais de 50 anos de palco, consagradíssimo, com uma plateia consolidade de pais, filhos e netos. Que só precisava dizer um “Hello, Recife” básico e ninguém reclamaria. E, mesmo assim, faz questão de passar entre o público na chegada ao estádio de janelas do carro abaixadas, saudando os fãs e dizer tantas (e complicadas!) frases em português (e com sabor da região!) com a ajuda de uma colinha no chão.

Nos dois dias, ele fez referências à nova mulher, Nancy Shevell (eles se casaram em outubro do ano passado), antes de “My valentine” (“Fiz essa música para a minha belíssima mulher, Nancy”), e depois emendou a lembrança de Linda McCartney (“Essa é pra você, Linda”), antes de “Maybe I’m amazed”.

Essas duas canções tem 30 anos entre elas. É uma prova de que Paul, antes de tudo, tem consciência de seu público e de seu papel perante a plateia. Já são mais de 50 anos de palco e ele apresenta canções de todas as fases de sua carreira. No domingo, foi de “I saw her standing there” – a primeira faixa do primeiro LP dos Beatles – a “My valentine” – uma das duas únicas faixas autorais do seu disco mais recente, Kisses on the Bottom, lançado em fevereiro.

Nas 36 músicas apresentadas na segunda noite, apareceram exemplares da fase inicial dos Beatles (“The night before”, que ele lembrou estar sendo cantada pela primeira vez no Brasil), na fase “do meio” (“A day in the life”) e a fase final do grupo, com o medley final do Abbey Road, último disco gravado pela banda (“Golden slumbers/ Carry that weight/ The end”, que encerrou o show). Marcaram presença sucessos da época do Wings (“Jet”, “Band on the run”), da carreira solo (“Here today”, homenagem a John Lennon), do projeto paralelo The Fireman (“Sing the changes”), e canções de autoria dos outros beatles (“Something”, de George Harrison, e um trecho de “Give peace a chance”, de Lennon). Enfim, o ex-beatle tem a sabedoria de abordar cada momento de sua extensa e largamente bem sucedida carreira.

No palco, a vitalidade de Paul (70 anos em junho) impressiona: enfrentou bravamente o calor intenso e pareceu estar se divertindo muito o tempo todo. Ele e sua banda não enrolam: tocam muito, o tempo inteiro, nas praticamente ininterruptas quase três horas de show (o baterista Abe Laboriel Jr. foi uma atração à parte). Eles fazem valer cada centavo do ingresso, trabalham muito: são operários do rock.

Paul também canta tudo, são poucos os momentos em que pede à plateia que cante por ele (só mesmo nos “nanana” de “Hey Jude”). Nada de piloto automático, Paul cantando o tempo todo e se dedicando á empatia com a plateia: Paul é o anti-Lulu Santos.

Como também aconteceu nos shows de 2010 e 2011 no Brasil, houve alterações do primeiro para o segundo dia. Saíram “Magical mystery tour”, “Got to get you in my life”, “Things we said today” e “Helter skelter” e entraram as mais populares “Hello, goodbye”, “Drive my car”, “I’ve just seen a face” e “I saw he standing there”.

O público do sábado foi maior – a estimativa é de 55 mil para o primeiro dia e 30 mil para o segundo. Mas não há dúvidas que o show é um marco histórico para os shows na região Nordeste. Nunca antes um empreendimento deste porte chegou por aqui e, apesar das muitas limitações estruturais do Estádio do Arruda, provou-se que há um mercado por estas bandas.

Assim, quando Paul começou a ser despedir com um “Temos que ir” e um “até breve” (em português, naturalmente), ficava a esperança de que ele realmente volte e que muitos de seus colegas também visitem a região para conhecer esse “povo arretado”.

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