Safiri e Mônica contracenam na revista Turma da Mônica Jovem

Foi em 1984 que Mauricio de Sousa e Osamu Tezuka (ou Tezuka Osamu, como se diz no Japão) se conheceram. Foi o nascimento de uma bela amizade entre os dois quadrinistas, separados por meio mundo. Celebrando esta amizade, o brasileiro conduziu sua equipe em uma bela homenagem ao maior nome dos quadrinhos japoneses: um encontro inédito entre os personagens das duas produtoras em duas edições da Turma da Mônica Jovem (a segunda, a número 44, está atualmente nas bancas).

As versões adolescentes de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali encontram Astro Boy, Kimba, o leão branco e a Princesa Safiri (de A Princesa e o Cavaleiro) em uma aventura na Amazônia. “Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil”, revela Mauricio de Sousa. “Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo”. Mauricio conta como surgiu a amizade entre os dois artistas, da negociação para o crossover de importância inédita nos quadrinhos brasileiros e dos planos já em andamento para a Turma da Mônica retribuir a visita aos personagens de Tezuka. A entrevista foi publicada hoje no Caderno 2 do Correio da Paraíba.

***

Mauricio e Tezuka no Japão, em 1985

– Do que você se recorda do dia em que conheceu Tezuka?

– Nosso primeiro encontro foi quando Tezuka esteve no Brasil em 1984, convidado pela Fundação Japão e visitou nosso estúdio. Foi quando me convidou para visitar o estúdio dele, também. Fiz isso no ano seguinte, em viagem também oferecida pela Fundação Japão. Na ocasião, sugeri que desejava estudar a vida das crianças japonesas em seus diversos aspectos.

– Como era a amizade de vocês? Diria que ele foi o que se tornou mais próximo entre todos os mestres da HQ que conheceu?

– Tezuka Osamu  não está entre nós desde 1989. Mas nos seus últimos anos de vida surgiu entre nós uma amizade, uma camaradagem que poucas vezes tive com outra pessoa. Em outra viagem, mais planejada, quando Tezuka completava 50 anos de profissão e fez uma festa, tive a honra de acompanhá-lo numa viagem por todos os pontos que marcaram sua vida. Desde a distante cidade de Takarazuka, com seu gigantesco teatro à moda do Radio City de Nova York, os parques em que ele brincava em criança, a escola, e depois seus estúdios, em Tóquio, seu museu particular, sua família, sua casa… Era um retorno, uma viagem de nostalgia que ele nunca havia feito na vida, um momento de descanso para um artista que fazia meio século não parava de trabalhar. Mas também tive um longo período de aproximação com Will Eisner. Com encontros no Brasil e nos EUA.

– Você escreveu que resolveu conhecer melhor a Amazônia por sugestão do próprio Tezuka…

– Tezuka me deixou envergonhado quando disse que eu precisava conhecer a Amazônia, como ele conheceu em sua viagem para o Brasil. Eu, brasileiro, ainda não conhecia de perto a maior floresta do mundo. Foi aí que surgiu a ideia de fazermos juntos um desenho animado com nossos personagens. Com fundo ecológico, usando a Amazônia como cenário. Anos mais tarde visitei a Amazônia não só para conhecê-la, mas para pesquisar por conta. Naturalmente quando tivemos a ideia não existia ainda a Turma da Mônica Jovem. O estilo próximo ao mangá da TMJ ajudou na composição com os personagens do Tezuka.

Primeiro encontro entre os personagens: Turma da Mônica consola personagens de Tezuka após a morte do criador, em 1989

– Que cuidados foram necessários para combinar os universos de todos esses personagens?

– Primeiro contatamos a família de Tezuka para retomar esse assunto. Foram muito simpáticos e marcaram um encontro no Festival de Livros Infantis de Bologna, na Itália. Contei tudo sobre os encontros com Tezuka e eles foram receptivos à ideia. Aprovaram a participação dos principais personagens de Tezuka na trama – Kimba, o leão branco; a princesa Safiri; e o Astro Boy. Desenvolvemos a história em nossos estúdios assim como os traços dos personagens de Tezuka. Tudo foi enviado para o Japão já com tradução para o japonês. Essa troca de mensagens e material gráfico foi perfeita. Pediram para adaptar uma coisa aqui e outra ali. Mas aprovaram tudo.

– Para finalizar: há algum plano de a história ser publicada também no Japão?

– Estamos iniciando negociação com editoras japonesas para publicar essa história também no Japão. E daqui a alguns meses sairá uma nova história apenas com a Turma da Mônica Jovem viajando para o Japão. Nessa história queremos mostrar como o Japão se reergueu das catástrofes do ano passado e está lindo e preparado para receber visitantes. Principalmente nossos jovens brasileiros.

Anúncios