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Sem vergonha do escapismo

O Capitão América (Evans) e Tony Stark, o Homem de Ferro (Downey Jr.): equlíbrio entre as forças

Os Vingadores – The Avengers (The Avengers, EUA, 2012) tem uma qualidade admirável: não tem a menor vergonha de ser o que é. Trata-se de um filme de super-heróis que é – na falta de uma definição melhor – à moda antiga, tão descompromissado quanto os velhos seriados de cinema dos anos 1930 e 1940 que, à base de orçamentos miseráveis, colocava os heróis dos quadrinhos contra cinetistas malucos ou nazistas.

A diferença é que agora, claro, o filme que reúne alguns dos principais heróis da Marvel que já estrelaram seus próprios filmes possui um orçamento mais do que milionário, dando conta tanto dos efeitos visuais quanto dos uniformes. O que faz com que essas aventuras deixem de ser meras atrações para crianças nas matinês dos cinemas para serem dotadas de um alcance global. Sinal dos tempos, os adultos são, dá para arriscar, os maiores interessados nessas aventuras.

Dos heróis que estão no filme, apenas o Capitão América já havia sido criado na época dos seriados – e até teve o seu próprio, em 1944. Os demais surgiram nos anos 1960, criações de, principalmente, Stan Lee e Jack Kirby. Em suas próprias aventuras, mas não demoraram quase nada a serem unidos no supergrupo Vingadores (o Quarteto Fantástico, primeiros heróis dessa onda, surgiram em 1961; os Vingadores já aparecem como grupo em 1963).

Esse trânsito entre heróis de quadrinhos nas revistas uns dos outros é comum desde antes dessa época, mas no cinema nunca foi tentado com a magnitude que Os Vingadores – The Avengers tenta – nunca se tentou algo nem perto disso. Esse crossover tem proporções inéditas e era arriscado por diversas razões – principalmente por ter muita gente em cena, o que já havia sido um problema em outros filmes de super-heróis. Mas Os Vingadores consegue dar conta plenamente. Uma das razões é seu elenco e equipe terem aparentemente abraçado de maneira tão plena o projeto, descompromissado e escapista como ele é.

Deu muito certo, como críticos e público já atestaram. Os dramas pessoais de cada personagem foram deixados para seus filmes particulares e o que se vê na tela é muita ação e bom humor. Em maior ou menor grau, é diversão garantida para os iniciados e para quem só conhece o Homem de Ferro dos filmes com Robert Downey Jr.

Aliás, como era esperado, o ator está um passo à frente no filme com a personalidade sarcástica de Tony Stark atraindo para si os melhores diálogos. Mas todos os heróis estão muito bem e o filme equilibra bem os momentos de brilho de cada um – seja isoladamente, nos confrontos contra os vilões ou nos embates uns contra os outros (e são muitos). Chris Pine (Capitão América), Chris Hemsworth (Thor) e Jeremy Renner (Gavião Arqueiro) não desapontam, assim como Scarlett Johansson (Viúva Negra), em cujas curvas o filme não cansa de se deter (e alguém vai reclamar?).

E o Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) rouba várias cenas. Como Hulk, ele ainda parece emprestado do elenco de Uma Cilada para Roger Rabbit, mas, pelo menos ele parece mais com Ruffalo do que com Edward Norton (intérprete no apenas razoável O Incrível Hulk).E talvez por o filme não ser apoiado totalmente nele, o personagem rende muito mais do que o esperado.

O vilão também é muito bem escolhido: Loki, irmão de Thor, interpretado pelo ótimo Tom Hiddleston, também entregue completamente ao seu papel de “diva”. Desde os créditos finais do filme do semideus, já era visível que ele seria o inimigo principal em Os Vingadores. Apesar de toda a invasão alinígena que dá margem à pancadaria da reta final, é Loki que faz o filme escapar de ser só isso. Seus diálogos com Thor, Homem de Ferro e até mesmo com o Hulk (de certo modo) são grandes momentos do filme.

É o melhor filme de super-heróis de todos os tempos, como alguns apressados já dizem? È uma discussão que não faz sentido, quando todos ainda estão sob o impacto do filme. Mas ele presta um serviço importante: provar que filmes de super-heróis não precisam ser sempre densos, dramáticos e realistas para serem ótimos (o que também não quer dizer que, sendo densos, eles não sejam ótimos). Há espaço para as duas vertentes e o talento narrativo (aqui, de Joss Whedon, diretor e único roteirista do filme) é que vai fazer a diferença.

Os Vingadores – The Avengers (The Avengers, EUA, 2012). Direção: Joss Whedon. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Stellan Skasgard, Samuel L, Jackson, Gwyneth Paltrow.

* Versão estendida da crítica publicada no Correio da Paraíba, no dia 9 de maio de 2012.

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