Após dois meses em cartaz no país, Heleno finalmente chega hoje aos cinemas de João Pessoa (na verdade, um só: o Cinespaço). Conversei com ele por telefone ontem e a matéria está na capa do Caderno 2 do Correio de hoje. Ei-la:

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Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro): um craque autodestrutivo

José Henrique Fonseca não é botafoguense: é vascaíno. Mas é o diretor do filme que retrata um dos maiores ídolos do clube da estrela solitária: Heleno de Freitas, tinha tanta elegância e boa aparência que foi até apelidado de “Gilda” pelas torcidas rivais (numa referência à personagem glamourosa Rita Hayworth, no filme homônimo, grande sucesso nos cinemas da época). Tinha também uma grande capacidade de arrumar problemas. Foi esta a perspectiva que atraiu Fonseca para dirigir Heleno (Brasil, 2012; estreia hoje em JP), com Rodrigo Santoro no papel principal e Alinne Moraes como a mulher do jogador.

“Eu sou atraído por personagens que estão em pontos culminantes de suas vidas, em becos sem saída”, contou o diretor, por telefone, do Rio, enquanto filmava o piloto de uma nova série para a HBO. Ele conheceu a história através do livro Nunca Houve um Homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves (no título, a referência ao slogan de Gilda). “Li o livro ainda no rascunho, gostei muito da história”, contou. Mas alertou que o filme não é uma adaptação do livro. “O filme é mais sensorial, mais íntimo. Não é uma biografia tradicional, é sobre a persona, a psiquê desse cara”.

Um dos elementos que fogem do tradicional é a fotografia do paraibano Walter Carvalho, em preto-e-branco. Apesar da relação com as cores do Botafogo carioca, Fonseca disse que procurou evocar o passado. “Filmei em preto-e-branco porque ele representa a fantasia mais que a cor. Te leva a uma certa magia”, contou. “E o preto-e-branco sempre foi minha formação como cineasta”. Ele achou que essa era a história ideal para buscar esse visual e contou com o apoio de Carvalho. “Já tínhamos trabalhado juntos em 1992”, lembrou o diretor. “É meu superamigo, gostei muito de ter voltado a trabalhar com ele. Só disse: ‘Faz em preto-e-branco. Só quero que fique bom pra c***”.

Esse cuidado no retrato com o passado levou a produção a uma busca por locações que ainda pudessem “interpretar” o Rio dos anos 1940. “O Rio de Janeiro mudou muito”, lembrou. “Tivemos que achar esse Rio da época do Heleno. Foi quase um garimpo arquitetônico”. Há retoques digitais no filme, mas poucos. “Usamos em alguns detalhes do Maracanã e de São Januário”.

A figura de Heleno de Freitas é mais importante que o futebol em si no filme. “Mas ele mostra uma época em que o futebol começou a virar a principal paixão brasileira”, disse o diretor. Ao contrário dos americanos com o beisebol, o basquete e o futebol americano, o cinema brasileiro não tem tradição em ter o futebol como assunto. É um tabu que Heleno tenta quebrar.

Heleno tenta abrir um pouco a cabeça do espectador”, afirmou Fonseca. “Ele propõe uma narrativa diferenciada, com músicas interessantes, tem Billie Holiday na trilha… Tem cheiro de cinema dos anos 1940”.

Heleno de Freitas jogou entre 1937 e 1953 (pelo Botafogo, até 1948, quando foi vendido para o Boca Juniors). Era habilidoso e bom cabeceador, tendo sido o maior ídolo do clube antes de Garrincha. Na vida pessoal, era bem-nascido e elegante. Mas também era genioso e autodestrutivo – é considerado o primeiro craque problema do futebol brasileiro. Viciado em éter, ele teve sífilis, que o deixou louco. De 1953 a 1959, quando morreu (aos 39 anos) viveu em um sanatório em Barbacena.

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