Conversei com o Fernando Meirelles sobre os dez anos da primeira exibição de Cidade de Deus no Festival de Cannes. A matéria foi publicada no sábado passado, no Correio da Paraíba, e aqui ela está em versão estendida.

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Fernando Meirelles, sendo homenageado pelos dez anos de ‘Cidade de Deus’, no Cine-PE, em abril

No dia 18 de maio de 2002, Cidade de Deus foi exibido em Cannes, fora de competição. Mas o filme saiu de lá vencedor, com a grande repercussão que obteve: o primeiro passo para a consagração nas bilheterias e o reconhecimento internacional. Hoje, 10 anos depois, o filme de  Fernando Meirelles consta em qualquer enciclopédia séria de cinema no mundo, é relacionado como um dos melhores tanto pelo público quanto pela crítica. “Acho que de certa maneira o mundo de CDD entrou no imaginário do Brasil. Para mim foi o grande prêmio”, conta Meirelles ao CORREIO, por e-mail.

Após Cannes, Cidade de Deus, baseado no livro de Paulo Lins, virou tema de editoriais em jornais por contar, de forma até didática, a evolução do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Mostrava a comunidade carioca de sua aurora nos anos 1960 à violência desenfreada nos anos 1980 e trazia um painel de personagens que ia do bandido mau desde criança ao jovem honesto que não consegue entrar para o crime nem quando quer, passando pelo traficante boa gente, crianças que têm os criminosos como ídolos, jovens “do asfalto” que, através do vício, se integram ao crime, o que tenta evitar a violência, mas não consegue, etc.Zuenir Ventura escreveu que assisti-lo era “um dever cívico”. Já a pesquisadora Ivana Bentes disse que o filme usava uma “cosmética da fome”, em contraposição à “estética da fome” do manifesto de Glauber Rocha e do cinema novo. Um debate acalorado mesmo antes do filme entrar em cartaz nos cinemas.

Quando o filme finalmente estreou, em agosto, o público foi em peso: Cidade de Deus fez 3,3 milhões de espectadores no Brasil, um público a que o nosso cinema estava desacostumado e que nunca deixou de surpreender o diretor. “Estávamos felizes com o corte mas mesmo assim jamais imaginávamos que o filme seria tão bem recebido”, diz Meirelles, lembrando do últimos dias na sala de edição, com o montador Daniel Rezende. “Eu sou muito chato comigo, mesmo, tenho uma estúpida capacidade de ampliar os defeitos do que faço e minimizar os acertos. É trabalho para muitos anos de análise”.

Busca-Pé (Alexandre Rodrigues): “Na Cidade de Deus, se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”

Coerente, ele também não se deixa embriagar pelo reconhecimento do filme. “Hoje fico feliz de ter participado de um trabalho que marcou, mas não deixo de pensar nem por um minuto que tudo é uma questão de tempo. Mais dias ou menos dias, Cidade de Deus será esquecido, se perderá para sempre – como todos nós, aliás”, afirma. “Com isso sempre em mente, não viajo muito na maionese da ‘imortalidade’ e coisas assim. Imortalidade  é coisa para acadêmicos. O Sarney, por exemplo, deve gostar de acreditar que foi alguma coisa na vida e que será imortalizado. Eu não caio nesta cilada”.

Ele não vê o filme desde 2002. “Acho que numa das sessões de promoção em algum lugar fora do Brasil”, recorda. “Não lembro exatamente mas mesmo fazendo tempo ainda sei todas as falas de cor. Que desperdício de memória RAM”. Ele também lembra o que gostaria de mudar no filme. “Achava o filme meio frenético demais, talvez eu o ralentasse um pouco”, conta. “Tem uma sequência inteira, da tentativa de assalto do Busca-Pé no onibus,  que ficou bem aquém do imaginado. Era para ser mais engraçada. Tem uma hora que vemos os traficantes saindo da boca para um ataque, onde acelerei a imagem. Ficou bem cafona. Que erro!”.

Os dez anos de Cidade de Deus inspiraram a produção de uma HQ que adapta o filme – ainda por ser lançada – e do documentário Cidade de Deus, 10 Anos Depois, que vai mostrar onde estão todas aquelas pessoas que participaram do filme – principalmente os jovens atores saídos de comunidades e que imortalizaram personagens como Busca-Pé (Alexandre Rodrigues), Bené (Phellipe Haagensen), Filé com Fritas (Darlan Cunha), Berenice (Roberta Rodrigues) e, principalmente, claro, Dadinho/ Zé Pequeno (Douglas Silva quando criança; Leandro Firmino da Hora, quando adulto). Também entrevista os dois nomes famosos do elenco – Matheus Nachtergele (Sandro Cenoura) e Seu Jorge (Mané Galinha) – e Alice Braga (Angélica), então apenas a sobrinha de Sonia Braga, mas que hoje segue uma cada vez mais sólida carreira internacional no cinema.

Alice Braga: do filme para uma carreira no exterior

Meirelles, que preferiu não se envolver diretamente com um doc sobre o filme dele mesmo, conta que continuou acompanhando a vida daquelas pessoas. “Acompanhei algumas delas por anos”, diz. “Há alguns garotos com quem continuo em contato. Como tudo na vida, alguns deles conseguiram aproveitar a oportunidade e deram um salto a partir dali, enquanto outros se afundaram e alguns morreram de forma trágica.  Quero acreditar que não haja relação direta entre o trabalho que fizemos juntos e esses que tiveram um destino duro”.

Na época do lançamento, houve quem lembrasse com temeridade do caso triste do protagonista de Pixote – A Lei do Mais Fraco. Por outro lado, também haviam os casos do Vinícius Oliveira, o garoto de Central do Brasil, e, depois, o das crianças de Quem Quer Ser um Milionário?, às quais os diretores deram uma espécie de acolhida e cuidado pós-filmagens. Meirelles lembra que, nas filmagens, pensava no destino que aquelas crianças e jovens teriam após o filme ficar pronto.

“Muito. Assim que acabou o filme, com um enorme esforço da Katia Lund e um apoio meu, foi criada uma ONG para que os garotos pudessem dar continuidade ao trabalho. Esta ONG ainda existe, chama-se Cinema Nosso, tem um site. Fora isso, por ter feito a série Cidade dos Homens na sequência, continuei muito próximo a alguns atores”, conta o diretor. “Criamos um laço muito forte. Cada vez que tenho uma notícia ruim a coisa me pega como se fosse um parente próximo. Fico feliz ao receber notícias de outros garotos que mudaram de vida, mas estão muito bem hoje”.

Leandro Firmino da Hora, o memorável Zé Pequeno

f Cidade de Deus foi importante na consolidação da retomada do cinema brasileiro, iniciada com Carlota Joaquina, em 1995. “Junto com Central do Brasil (lançado em 1998) foi um filme importante para começar a trazer de volta o público brasileiro para ver nossos filmes”, avalia. “Nesta última década, muitas produções superaram o sucesso de público de CDD. Visto com esta perspectiva o filme foi um degrau a mais nesta escada que é nosso cinema”.

Cidade de Deus ganhou em seis categorias no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (filme e direção, entre eles), o Bafta de melhor montagem (Daniel Rezende derrotou, por exemplo, O Senhor dos Anéis – As Duas Torres e Chicago), foi indicado ao Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e a quatro Oscars (direção, roteiro adaptado, fotografia, montagem e direção). Meirelles estava lá, no Kodak Theatre, sendo focalizado no momento do anúncio junto a Sofia Coppola, Peter Weir, Clint Eastwood e Peter Jackson, que venceu por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (filme que, aliás, levou tudo aquela noite).

“O Oscar é legal mas é um prêmio para a industria americana, não para nós, cucarachos”, pondera. “Vamos aprender a dar um desconto, afinal filme não é esporte para se ganhar ou perder”.

Também é impressionante contabilizar o reconhecimento que Cidade de Deus tem alcançado internacionalmente além dos prêmios e com o passar dos anos – talvez, contradizendo a previsão de Meirelles de que o filme “será esquecido”. Através das notas atribuídas pelos usuários do Internet Movie Database, em um universo de centenas de milhares de votos, o filme é o 18º melhor colocado – com a mesma média (8,7) de Os Bons Companheiros (1990), Guerra nas Estrelas (1977), Casablanca (1942), Matrix (1999), Era uma Vez no Oeste (1968) e Janela Indiscreta (1954).

Já a revista Empire elegeu o filme como o sétimo melhor do “world cinema” – ou seja, os filmes não falados em inglês. Cidade de Deus está à frente, por exemplo, de O Sétimo Selo (1957), de Bergman, em 8º, e A Doce Vida (1960), de Fellini, em 10º. Na lista da revista dos 500 maiores filmes de todos os tempos (uma pesquisa envolvendo cineastas, críticos e leitores), o filme de Fernando Meirelles ocupa uma respeitabilíssima 177ª posição, à frente de clássicos como A Felicidade Não Se Compra e Glória Feita de Sangue e de filmes muito populares como Jurassic Park.

“360”, que estreia em agosto: “Pegaram pesado”

Tudo reflete os motivos pelos quais as portas do cinema internacional foram abertas para Fernando Meirelles. Ele dirigiu, depois, O Jardineiro Fiel (2005, com o qual Rachel Weisz ganhou o Oscar que atriz coadjuvante), Ensaio sobre a Cegueira (2008) e, agora, 360 (2011), que foi recebido com críticas divididas nos festivais de Toronto e Londres, no ano passado. Talvez, até, pegando pesado.

“Alguns jornalistas bateram feio, mas tudo que eu fiz até hoje tomou muita pancada, inclusive Cidade de Deus, então acho que ja aprendi a não me abalar tanto. Me chateia mas passa”, diz. “O filme está vendido para o mundo todo, faço uma turnê de lançamento agora em final de junho até começo de julho, esta é a parte dura do trabalho. E sim, pegaram pesado. É um filme despretensioso e creio que alguns críticos esperavam algo mais bombástico, mas não nasceu para ser isso. A simplicidade também é uma conquista”.

O filme – com Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law – estreia no dia 16 de agosto no Brasil e o trailer será lançado em junho, mas Meirelles já abriu uma conta no twitter para postar informações. O diretor segue a trilha aberta por Cidade de Deus produzindo no Brasil, através da O2, e dirigindo seus filmes. Como ele diz, está acostumado a levar pancada, mas continua fazendo cinema em seus próprios termos.

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