Carlos Reichenbach morreu na quinta, dia 14. Um dos grandes do cinema brasileiro. Eu fiz uma matéria para o Correio ouvindo algumas pessoas e, agora, a coloco aqui, acrescida de alguns depoimentos importantes que não chegaram a tempo. Falam Luiz Zanin, Carlos Alberto Mattos, Marcelo Miranda, José Geraldo Couto e Andréa Ormond.

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Carlos Reinchenbach sempre foi um resistente do cinema autoral no Brasil – da época das pornochanchadas dos anos 1970 ao cinema de aparência televisiva que se tornou o padrão mais visto do Século XXI por aqui. Carlão – que morreu na tarde do dia, mesmo dia em que completava 67 anos, em São Paulo – era, simplesmente, o Carlão.

Ele era gaúcho de Porto Alegre, mas seu cinema tem uma cara paulistana por excelência, graças às suas produções na Boca do Lixo, nos anos 1970. Seu último longa havia sido Falsa Loura (2007), com Rosane Mullholland, e, entre seus trabalhos mais memoráveis dois ganharam o prêmio máximo nos mais tradicionais festivais do Brasil: Anjos do Arrabalde (1987), melhor filme no Festival de Gramado, e Alma Corsária (1994), melhor filme em Brasília.

“A morte de Carlos Reichenbach fecha não apenas uma era no cinema brasileiro, mas várias eras”, diz o jornalista Marcelo Miranda, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. “Ele foi um artista completo, tanto no sentido da criação (escrevia, fotografava, compunha músicas, dirigia, editava) quanto na formação profundamente intelectual que vinha desde a juventude. Essa forte erudição entrava em sua obra de uma maneira orgânica, fluida, compartilhada, generosa, como pouco (nunca?) se vê numa criação artística.”

“O Carlão foi um cara que, em sua obra, conseguia unir a mais fina erudição à vertente popular do cinema na qual ele se formou e acreditava. Era, nesses termos, um artista único no presente cinema brasileiro”, diz Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo. “Além do mais, era uma alma puramente libertária, que não cessava de lutar por aquilo que acreditava, algo mais raro ainda nesse tempo de caretice e acomodação. A meu ver, deixa um legado de obras muito interessantes, das quais eu destaco duas, pelo meu gosto particular: Filme Demência e Alma Corsária“.

“O que me fica do Carlão é um cinema feito com alegria e paixão”, complementa o carioca Carlos Alberto Mattos, da revista Filme Cultura. “Mesmo quando seus filmes eram ruins, havia essa ‘felicidade de fazer cinema’ brilhando por trás. Mesmo quando eram tristes, como sua obra-prima Anjos do Arrabalde, a gente podia adivinhar seu sorriso de menino grande por trás das imagens”.

O cineasta Silvio Da-Rin, que apresentou seu documentário Hércules 56 em João Pessoa na quinta, também falou sobre Carlão. “Carlão era um ser humano com características extraordinárias, uma pessoa extremamente generosa”, disse. “Tinha um embasamento intelectual, artístico. Seus filmes eram extremamente refinados. O cinema dele é uma prova de um imenso diálogo para o público, mas sem fazer um cinema concessivo, fácil. Ele nunca fez um cinema apelativo. Começou fazendo dramas eróticos originalíssimos”.

A generosidade também é lembrada por José Geraldo Couto, de Florianópolis, colaborador da CartaCapital. “Ainda é cedo para avaliar a importância de Carlos Reichenbach para o cinema brasileiro”, avalia. “Além de seus filmes instigantes, inovadores, que buscam uma ponte entre o popular e o experimental, a vanguarda artística e a Boca do Lixo, fica o seu exemplo de paixão pelo cinema e pela vida, sua generosidade com todos os que dele se aproximavam”.

Andréa Ormond, autora do blog Estranho Encontro, sobre cinema nacional, é uma dessas pessoas. “O Carlão foi a primeira pessoa a apoiar e a divulgar o meu trabalho, quando ainda nem me conhecia pessoalmente”, lembra ela. “Era um dos pouquíssimos brasileiros adeptos do mérito e não do tapinha nas costas. O cinema dele fica e precisa ser redescoberto, em toda a sua inquietação. Porque foi concebido por alguém que via Mario Bava, Samuel Fuller, Mojica. Alguém que ouvia pontos de umbanda, mas também sonhava em assistir a uma pregação do reverendo Al Green. Um cineasta que não se restringe aos Anjos do Arrabalde ou A Ilha dos Prazeres Proibidos. Um homem brilhante, genial e que foi-se de repente, em um sopro”. “Carlão era generoso com todos e dialogava com facilidade com a juventude. Talvez porque jamais tenha deixado de ser jovem”, adiciona Zanin.

“Ver um filme de Carlão era mergulhar num universo único, falso e verdadeiro, trágico e emocional, erudito e popular, e sempre muito político”, continua Miranda. “Porque ele estava sempre questionando esferas de poder através da vida de pessoas comuns do dia a dia”. “Já está fazendo muita falta, como se um pedaço da nossa juventude tivesse nos deixado de vez”, completa Mattos.

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