Na semana da estreia de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, vamos fazer uma retrospectiva das críticas dos dois filmes anteriores da série. A de Batman Begins foi publicada no Minha Vida de Cinéfilo, em 27 de junho de 2005.

***

Batman Begins com o pé direito

Christian Bale, em um filme que entende quem é o Batman

Se existe alguém no mundo que não sabe sequer do que se trata o nome “Batman”, ele não precisará mais do que assistir a Batman Begins (Batman Begins, EUA, 2005) para estar por dentro do que há para saber sobre o assunto. Disparada a melhor adaptação do Homem-Morcego já realizada com atores de carne e osso, o filme de Christopher Nolan – que vendeu 475 mil ingressos em seu primeiro fim de semana no Brasil – vai ao âmago do personagem e é tudo o que o Batman de Tim Burton (1989) deveria ter sido e não foi.

O caráter gótico, por exemplo, com uma cidade cenográfica que nunca inspirava verdade, foi substituído por um ambiente mais realista – com exceção para os inúmeros trens elevados, que dão a Gotham City um ar de Metrópolis (não a do Super-Homem, mas a do filme de Fritz Lang). Esse cenário “de verdade” é ideal para um herói “de verdade” – e é assim que Batman Begins trata o Homem-Morcego.

Tudo o que cerca o início das aventuras do herói é explicado de maneira muito satisfatória e sem grandes exageros (não é o Coringa que mata os pais de Bruce Wayne, na coincidência extremamente forçada que o Batman de Tim Burton quis empurrar, mas um assaltante comum). Sabe-se como Bruce, ainda criança, descobre a caverna embaixo da mansão, como viu a morte de seus pais, como conviveu com bandidos tentando desordenadamente descobrir o modo de pensar e agir de um criminoso, como foi treinado em artes marciais, de onde surgiu o batmóvel e todo o equipamento que usa, como o morcego foi escolhido como imagem para aterrorizar os bandidos, e como finalmente aprendeu a domar sua raiva e usá-la para levar a justiça à cidade e não para se vingar.

Ou seja: o espectador comum entende perfeitamente quem é o Batman, quais são suas motivações, porque ele faz o que faz, se identifica e deixa de pensar que tudo não passa de “mera história em quadrinhos”. E, mesmo assim, as referências estão lá o tempo todo: atenção para o final, que remete diretamente à conclusão da minissérie em quadrinhos Batman: Ano Um e já abre caminho para uma continuação.

O filme é brilhante, sobretudo, ao mostrar que – ao contrário do Super-Homem que, no fundo, é Clark Kent, um bom rapaz que veio do Kansas – Batman não é, na verdade, Bruce Wayne. Bruce é o disfarce: ele é mesmo o Batman, um sujeito que só vive para combater criminosos. A relação com a namoradinha promotora (Katie Holmes, um dos pontos fracos do filme) e, principalmente, com o mordomo Alfred (Michael Caine, extraordinário) mostram isso com perfeição.

Como vilão, o Espantalho não cai no caricato e dá conta do recado, até abrir caminho para o verdadeiro antagonista do filme. Mas até chegar nesse ponto, a história mostra Bruce galgando degraus até encontrar a si mesmo. E na pele de Christian Bale, Bruce Wayne encontrou o ator ideal, apoiado por coadjuvantes primorosos (Morgan Freeman, Gary Oldman, Liam Neeson).

Nolan, um diretor que já mostrou ter personalidade, soube equilibrar o lado sombrio do morcego, sem transformá-lo num psicopata, como aconteceu durante certa época nos gibis. Mesmo assim, Batman nunca esteve tão aterrorizante: dá para entender por que os bandidos têm medo dele.

É um passo definitivo para uma bem-sucedida adaptação de quadrinhos para o cinema: respeito para com os personagens. Trazê-los para a vida real e não fechá-los num mundo de mentirinha foi a chave do sucesso dos dois filmes do Superman (1978/81) e dos dois do Homem-Aranha (2002/04). É também o alicerce para que um longa como Batman Begins não seja construído só como uma aventura divertida de super-herói – mas, acima de tudo, como um ótimo filme.

Batman Begins. Batman Begins. Estados Unidos, 2005. Direção: Christopher Nolan. Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Gary Oldman, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Linus Roache, Sara Stewart, Gus Lewis.

Anúncios