Liniers: quinto álbum de ‘Macanudo’ no Brasil e exposição no Rio

Desde a Mafalda de Quino um quadrinho argentino não alcançava uma razoável popularidade entre os leitores brasileiros. Mas outra garotinha portenha também vem ganhando cada vez mais fãs, embora dividindo o protagonismo de sua tira com outros personagens engraçados e comoventes. Enriqueta faz parte do elenco de Liniers, o quadrinista argentino que se tornou um dos mais importantes nomes da HQ na América Latina. Ele acaba de ter lançado no Brasil o quinto volume da coletânea de sua tira Macanudo e uma exposição no Rio está celebrando sua obra através dos originais do artista.

O quadrinho argentino tem forte história no país vizinho e vai bem além de Quino e Liniers. No Brasil já saíram tiras de Gaturro e, recentemente, a clássica ficção científica El Eternauta. O sucesso de Macanudo pode estar fazendo parte de uma aproximação maior entre os dois países nessa área. “Espero que sim”, disse Liniers, ao CORREIO, do Rio, onde esteve para a abertura da exposição Macanudismo. “Eu teria gostado muito de ler Angeli ou Laerte na minha adolescência. Tomara que livros, música, cinema, tudo pule estas fronteiras com mais facilidade”.

Fellini e Enriqueta: humor e amor pelos livros

Macanudo (que quer dizer algo como “bacana” ou “legal”) é publicado originalmente no jornal La Nación, de Buenos Aires, desde 2002. Começou a se tornar popular no Brasil ainda pela internet e chegou a ser publicada na Folha de S. Paulo. Os álbuns chegaram às livrarias por aqui em 2008. Em 2010 foi lançado Bonjour, produção anterior de Liniers, que saía semanalmente em Página 12.

Foi a quadrinista Maitena, autora de Mulheres Alteradas (cuja série também foi publicada no Brasil), que o levou à mudança da tira semanal para a nova série diária. E o que começou em Bonjour, ele firmou em Macanudo: não muitos personagens fixos, uma observação do mundo que se alterna entre o humor, a ternura e a melancolia, e o diálogo com a cultura pop.

O nonsense poético é marca forte do argentino

“Comecei Macanudo sem  saber para onde ela iria”, diz o quadrinista. “E ainda não sei para onde vai. O trabalho de um artista é como uma viagem em que importa muito pouco o destino”. Ir com o vento explica a postura de não se prender demais aos personagens, mesmo os mais populares. “Macanudo muda sempre porque eu mudo sempre”, conta. “Estamos vivos, isso é mudar”.

Ele faz parte de uma geração de autores para jornal que desenvolveu uma narrativa onde a obrigação da piada nas tiras de humor diminuiu e o trabalho pode seguir outros caminhos, mais existenciais. “Desapareceram alguns preconceitos sobre esta forma narrativa”, avalia. “Acredito que isso faz com que o panorama seja muito mais variado e rico. Vale tudo!”

Liniers, pintando um painel na abertura da exposição “Macanudismo” (foto: Kadu Ferreira)

Suas sessões de autógrafo no Brasil são concorridíssimas. Isso se repetiu no volume 5, na abertura de Macanudismo (foram mais de 4h30 de autógrafos). “Pra mim a importância da obra de Liniers é conseguir fazer com que as pessoas tenham um momento de alegria e ternura – e também de nonsense e mistério – no seu cotidiano”, diz Bebel Abreu, pessoense que é a curadora da exposição que está na Caixa Cultural até setembro. “O fato de ele ser um autor absurdamente prolífico e generoso também me motivou a trazer a mostra para o Brasil”.

Ela conta que as redes sociais são uma demonstração da popularidade do artista argentino. “Percebemos que ele tem fãs ardorosos no Brasil, mas muita gente está conhecendo seu trabalho agora…”, conta ela. “Apostamos que a mostra vai levar seu trabalho a muitas outras pessoas que não tinham tido contato ainda. Tivemos grande alegria em sair com destaque nas mais diversas mídias cariocas e mesmo paulistanas. E pela primeira vez em muito tempo vejo as pessoas escrevendo em seus blogs e sites, muito mais bacana que copiar e colar o release, que é o que acontece em 90% dos projetos culturais”.

Para os paraibanos, a ótima notícia é que Macanudismo estará na Caixa Cultural Recife na sequência: de 18/9 a 18/11. Será uma oportunidade e tanto para apreciar ainda mais a obra de Liniers e suas influências confessas para personagens como a leitora voraz Enriqueta e seu gato Fellini, os pinguins, a vaca cinéfila, os duendes, o casal Lorenzo e Terezita, o misterioso homem de negro.

‘Macanudo’ 5 sai, mais uma vez, pela Zarabatana

“Muitíssimas influências”, confirma. “Não só de quadrinistas, mas também Woody Allen, Monty Python, (o escritor americano Kurt) Vonnegut, Bob Dylan, Chaplin, Steinbeck e Stephen King!”. A lista continua com os argentinos admirados por ele. “Adoro artistas como Maitena, Quino, Fontanarossa, Caloi, Max Cachimba, Solano López, (Carlos) Trillo, (Horacio) Altuna, (Carlos) Nine… É uma lista muito longa”.

Uma grande combinação para criar esse clima de nonsense e mistério desta obra-prima que é Macanudo.

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