Na semana da estreia de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, vamos fazer uma retrospectiva das críticas dos dois filmes anteriores da série. A de Batman, o Cavaleiro das Trevas foi publicada no Minha Vida de Cinéfilo II, em 21 de julho de 2008.

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Um jogo de luz e trevas

O Coringa está no filme para testar os limites do herói e da plateia

Como Batman, Bruce Wayne pode ir aonde nenhum outro homem pode. Mas isso dá a ele o direito de ultrapassar certos limites? Em última instância, é sobre isso que trata Batman, o Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, Estados Unidos, 2007), o segundo da série dirigida por Christopher Nolan (e iniciada por Batman Begins, 2005). O Coringa arrasador e desconcertante de Heath Ledger está no filme para isso: para testar o herói, testar o incorruptível promotor público Harvey Dent, testar os habitantes de Gotham City e, por fim, testar a própria platéia do cinema.

A ética e a responsabilidade são fatores fundamentais no filme. Batman (Christian Bale) se pergunta se o que faz é realmente necessário, se está trazendo mais mal ou bem à cidade que quer defender. O Coringa, pelo contrário, aparece para bagunçar o coreto, para ver “o circo pegar fogo”, como diz o mordomo Alfred (Michael Caine). É um anarquista, que não está nessa por dinheiro. Em certo momento, diz que não segue regras ou planos – mas não é bem verdade. O plano do palhaço do crime é enlouquecer uma cidade inteira e suas ações, num crescendo, vão efetivamente levando a isso.

Ledger cria um Coringa para não se esquecer jamais – e, sejamos justos, isso já vinha sendo antecipado muito antes da morte do ator, em janeiro. Com ele, o espectador vai do riso ao choque, e de volta, em vôos sem escalas. Com ele, não há limites ou censura – e para os que querem caçá-lo? Há também os que mantêm os pés no chão em meio à espiral de loucura, as âncoras para os heróis em meio à tempestade: Jim Gordon, Alfred e Lucius Fox, todos esplendidamente interpretados respectivamente por Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman, graças também à direção generosa, que deu espaço a todos eles. Bale também está ótimo ao mostrar o super-herói em dúvida – uma humanidade que faz muito bem ao personagem – e Maggie Gyllenhall mostra o quanto Batman Begins perdeu ao escalar equivocadamente Katie Holmes como a mocinha.

O filme é calcado não só na ação, mas nas relações humanas – o principal ponto de realismo do filme, e onde todos esses grandes atores fazem diferença. É isso o que faltava nos dois filmes de Tim Burton, e Nolan já ensaiava no Batman Begins para atingir a plenitude neste Batman, o Cavaleiro das Trevas. Ele se apoiou em duas das melhores histórias do Homem-Morcego, combinando elementos de A Piada Mortal, na qual o Coringa quer provar que basta um dia ruim para enlouquecer alguém, e O Longo Dia das Bruxas, focada em Harvey Dent (Aaron Eckhart, no filme). Os momentos de diálogo entre Batman e Coringa são emblemáticos, explorando o circular jogo de luz e trevas entre eles – só esses momentos já dariam a esse filme o lugar de melhor adaptação do Homem-Morcego já feita para o cinema. Mas há muito, muito mais, em um resultado difícil de ser alcançado por qualquer filme de super-heróis. Ou por qualquer filme e ponto final.

Batman, o Cavaleiro das Trevas. (The Dark Knight). Estados Unidos, 2008. Direção: Christopher Nolan. Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Monique Curnen, Cillian Murphy, Eric Roberts, Anthony Michael Hall.

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