50 anos depois, uma estrela que ainda brilha

É difícil imaginar o choque do mundo naquele 5 de agosto há 50 anos. A maior estrela do cinema por nove anos, Marilyn Monroe foi encontrada em sua cama, nua e morta. Ela tinha 36 anos. Foi o fim de uma vida que alternava o glamour e a beleza em frente às câmeras com uma vida íntima de sofrimento e solidão.

Nove anos porque foi em 1953 que Marilyn teve seu “ano mágico”: três filmes que elevaram a atriz de pequenos papéis e presença hipnotizante a superestrela. Em Torrentes de Paixão, Como Agarrar um Milionário e Os Homens Preferem as Loiras, ela ainda não era o nome principal do elenco. Mas nos três ela roubou a cena e tudo mudou.

1953, “O Homens Preferem as Loiras”: o ano mágico

Não que isso não acontecesse antes. Em A Malvada (1950), ela divide uma cena ao lado de astros tarimbados como Bette Davis, George Sanders e Celeste Holm, mas sua aparição luminosa é um momento muito particular do filme (veja a cena e outras da atriz).

Sua imagem de símbolo sexual de cabeça vazia a incomodava. Em O Pecado Mora ao Lado (1955), de Billy Wilder, seu personagem era apenas “The Girl”, a vizinha gostosíssima que despertava a cobiça e a culpa do homem casado do andar de baixo e o deixava observá-la enquanto o vento do metrô levantava seu vestido branco. Um coquetel de inocência e sex appeal que era um resumo do poder atrativo de Marilyn.

1955, “O Pecado Mora ao Lado”: inocência e sex appeal

Foi um acontecimento, mas também marcou um passo ousado para se livrar dessa imagem. Ela se mudou para  Nova York para estudar no Actor’s Studio, a respeitada escola de atores de Lee Strasberg. No ano seguinte, abriu a Marilyn Monroe Productions, para dar a si mesma papéis que a indústria não achava que eram para ela.

Daí vieram Nunca Fui Santa (1956) e O Príncipe e a Corista (1957). O primeiro envelheceu um bocado, mas Marilyn se sai bem em seu papel dramático. As filmagens do segundo, em Londres, onde ela era dirigida por e contracenava com o shakespeareano Laurence Olivier, motivaram o filme Sete Dias com Marilyn (2011), pelo qual Michelle Williams foi indicada ao Oscar.

1959, “Quanto Mais Quente Melhor”: Globo de Ouro

Apesar de seus esforços, Marilyn nunca foi lembrada pela Academia. O máximo em que chegou em matéria de prêmios foi o Globo de Ouro de atriz em comédia ou musical, pela Sugar Kane de Quanto Mais Quente Melhor (1959), de novo com Billy Wilder.

O diretor não deixou de falar sobre como era um tormento filmar com Marilyn, seus problemas pessoais, atrasos, o esquecimento dos textos. Mas também dizia que, quando a câmera a captava, tudo valia a pena.

A essa altura, Marilyn já estava no terceiro casamento – com o dramaturgo Arthur Miller. Ela foi casada, primeiro, com Jimmy Dougherty, de 1942 a 1946. Ainda Norma Jeane Mortenson, se casou para não voltar para o orfanato.

Modelo em 1949, foto de André de Dienes

Norma Jeane teve uma infância difícil. Não conheceu o pai biológico e a mãe, Gladys, era mentalmente instável e financeiramente incapaz de cuidar da filha. A garota ficou em casa de parentes, orfanatos e passou por maus bocados quando a mãe tentou reavê-la. Aos 16 anos, quando a família com quem estava iria se mudar e não iria levá-la, a saída foi se casar com Jimmy.

Eles viveram felizes, até que Jimmy foi servir a Marinha. Foi a época em que Norma Jeane foi descoberta e contratada por uma agência de modelos – e, de morena, se tornou loura. Quando o marido voltou, ela teve que optar entre ele e a carreira.

Foram muitas capas de revista até surgir a chance de um teste na 20th Century-Fox. E, com isso, veio a mudança do nome. Fez pontas sem fala até os primeiros pequenos papéis. Mas os primeiros anos foram difíceis e, em 1949, ela aceitou o convite do fotógrafo Tom Kelley para posar nua. Recebeu US$ 50 pelas fotos.

1949: uma das fotos clássicas do ensaio de Tom Kelly

O ano seguinte foi o ano de A Malvada e a maré começou a mudar. Em 1953 começaram as cenas icônicas, como o número “Diamonds are a girl’s best friend”, imitado por Madonna no clipe de “Material girl”, em 1984. Nicole Kidman cantou a música em Moulin Rouge (2001).

Em 1954, ela se casou com o astro do beisebol Joe DiMaggio. Mas ele não suportou o status de símbolo sexual máximo da esposa, após a cena do vento no metrô em O Pecado Mora ao Lado. Dois meses após a filmagem da cena, nove após o casamento, eles se separaram.

Ela se casou com Miller em 1956. Para ela, ele adaptou um conto seu para o roteiro de Os Desajustados (1961), de John Huston, que viria a ser seu último filme. Marilyn em uma excelente performance dramática, exibindo uma fragilidade que tinha muito dela mesma.

1962: a última sessão de fotos, com Bert Stern

Mas ela também passava por sérios problemas de saúde e estava se tornando dependente do álcool e das drogas que conseguia com os médicos. O divórcio de Miller veio ainda em 1961. 1962 foi o ano do impressionantemente erótico “Happy birthday, Mr. President” cantado para Kennedy na Casa Branca. E teria sido o ano de Something’s Got to Give, mas suas faltas levaram a Fox a demiti-la, mesmo com muito dele já filmado: ela compareceu a 12 dos 35 dias de filmagens. Mas mesmo assim, ela deixou um momento antológico: a cena em que nada nua em uma piscina.

Marilyn negociava vários projetos – incluindo a retomada de Something’s Got to Give – quando morreu. Posou para ensaios fotográficos – sendo o último deles na suíte 261 do Hotel Bel Air, em Los Angeles, paras lentes de Bert Stern, da Vogue, em julho. A morte veio por overdose de medicamentos. Uma morte tão chocante e inesperada, que até hoje circulam teorias da conspiração a respeito. Teria sido a CIA, a mando de seus amantes John e Robert Kennedy?

O mito de Marilyn é tão grande que nenhum filme ou peça sobre ela chegou a ser um grande sucesso. No cinema, Sete Dias com Marilyn foi o mais bem-sucedido. Na TV, a série Smash foi ainda melhor, imaginando os bastidores de um musical sobre ela. Nele, uma canção defende que, no final, os bons momentos têm mais força que os maus. Com Marilyn, esses bons momentos eram inesquecíveis.

MINHA CENA PREFERIDA

Aqui, cada convidado elege a cena de Marilyn que mais o marcou. O interessante é que todos fugiram das cenas mais óbvias, buscando um retrato mais abrangente da estrela.

SUZANA UCHÔA ITIBERÊ, editora da revista Preview

“Uma das cenas que mais me impressionam não está entre seus momentos antológicos, mas no início da carreira. É uma sequência muito breve de A Malvada, em que Marilyn surge como acompanhante de George Sanders em uma festa na casa de Betty Davis. Os três dividem a tela e logo chega a personagem de Anne Baxter – a Eve do título original. Embora a magistral Bette Davis comande a cena, é impossível tirar os olhos de Marilyn. Seu magnetismo já era pulsante. O diretor Mankiewicz com certeza notou o carisma de Marilyn e reforçou sua luz no figurino. Enquanto Bette, Sanders e Anne vestem trajes escuros, Marilyn é pura luz com um vestido e um visom branco. Inesquecível. Para mim, ali ela já era uma estrela e não sabia”.

WALTER GALVÃO, editor geral do Correio da Paraíba

“Uma cena inesquecível para mim é a de Sugar Kane, a crooner  de Quanto Mais Quente Melhor, cantando no trem e tocando um cavaquinho. É difícil porque o espaço é mínimo, o instrumento exige gestual específico, a coreografia é rápida e ela tem que aproveitar luz, os limites do figurino e conjunto para ressaltar o efeito. O desempenho é ótimo, ela distribui carisma e talento, brilha como a estrela sedutora que é e age como uma atriz experimentada”.

LUIZ ZANIN, crítico de O Estado de S. Paulo

“Acho que cena dela conversando com o Tony Curtis – aliás, sussurrando com aquela voz de cio – em Quanto mais Quente Melhor, é uma das mais sensuais da história do cinema”.

JOÃO BATISTA DE BRITO, crítico, colaborador do Contraponto e de A União

“Na cena da caça aos cavalos selvagens em Os Desajustados, a angústia dela dentro do caminhão. Ali você vê como a personagem se confunde com a atriz: uma pessoa frágil, que ficava perdida com toda aquela brutalidade”.

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