Com “Lôcas”, “Love and Rockets” volta a ser publicada no Brasil

Se hoje há um cenário independente importante nos quadrinhos americanos, muito se deve a Love and Rockets. A revista capitaneada pelos irmãos Gilbert e Jaime Hernandez mostrou que existia uma via a percorrer onde autores poderiam ter toda a liberdade na condução de uma história – e se divertir, divertindo os leitores no processo. Agora, Love and Rockets retorna ao Brasil através do álbum Lôcas – Maggie, a Mecânica (Gal Editora, 152 páginas), que compila as primeiras histórias de uma das séries que compunham Love and Rockets: Hopper 13 (ou Locas), de Jaime Hernandez.

O primeiro volume de Love and Rockets é de 1981. E teve 50 edições até 1996, com a colaboração ocasional de outro dos irmãos Hernandez, Mario. Neste ano, Gilbert e Jaime passaram a publicar seus personagens separadamente, até o retorno, em 2001, para Love and Rockets  – Volume 2. A essa altura a série já estava consagrada como um clássico dos quadrinhos – de qualquer estilo.

Jaime Hernandez conversou por e-mail sobre Lôcas, as aventuras de duas garotas comuns – Maggie e Hopey – envolvidas às vezes com um cotidiano bastante comum e, em outras, com situações fantásticas. Ele conta, também do que ama o filme Orfeu Negro e gosta de outras coisas no Brasil. “Como poderia não gostar do Zé do Caixão?”, pergunta.

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Hopey e Maggie: as “Betty e Verônica” de Hernandez em “Lôcas”

Quando Love and Rockets começou, o mercado de quadrinhos nos Estados Unidos era muito diferente. O que você acha que mudou nos quadrinhos independentes desde então?

Difícil dizer, porque realmente não havia muito de um mercado de quadrinhos independentes, na época. 30 anos depois, há um grande número de artistas que fazem o trabalho em seus próprios termos, do seu próprio jeito. Agora, mais do que nunca na história dos quadrinhos.

As primeiras histórias de Lôcas estão sendo publicadas agora no Brasil. O que você lembra sobre o que os primeiros passos da série?

O que mais me lembro é que eu estava me divertindo muito. Não havia regras e ninguém para nos dizer o que não fazer.

Fale um pouco sobre Maggie e Hopey. Como você criou as meninas?

Eu queria criar minhas próprias Betty e Veronica (personagens da série em HQ Archie). Minhas próprias Lucy e Ethel (personagens da série de TV I Love Lucy). Minhas próprias Abbott e Costello. Duas amigas para escrever sobre. Duas personagens para metralhar diálogos. Eu também estava encantado com o estilo e a atitude das meninas punk do sul da Califórnia naquela época.

As garotas e seus problemas: do aluguel atrasado a… dinossauros!

Seus irmãos e você discutem ideias? Ou cada um trabalha em suas próprias histórias?

Trabalhamos em nossas próprias histórias, mas conversamos uns com os outros sobre elas de vez em quando.

Você colocou Orfeu Negro em uma lista de seus filmes favoritos. Talvez saiba que este filme é inspirado em uma peça de teatro brasileira de Tom Jobim & Vinicius de Moraes.

Meu irmão me mostrou há alguns anos e eu amei. Eu tenho um DVD dele e vejo de vez em quando. Eu adoro a forma como a música dá o tom de uma parte da história.

O que mais você sabe sobre o Brasil?

Outro filme favorito meu é Pixote. Levei anos para conseguir um DVD, mas finalmente consegui. Esse ainda me bate pra valer quando assisto. E, naturalmente, há o Zé do Caixão. Como poderia não gostar do Zé do Caixão?

* Publicada no Correio da Paraíba, em 12 de agosto de 2012

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