“Aprendi a tomar porrada e continuar em pé”. É assim que o cineasta Fernando Meirelles diz que tem recebido as críticas a seu novo filme, 360 (2012), que está em cartaz em João Pessoa (veja locais e horários na agenda). “Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar”. De Viena, capital da Áustria, onde lançou o filme esta semana, ele conversou com o CORREIO sobre o filme e enumera suas qualidades:

– O que, no roteiro de Peter Morgan, fez você decidir dirigir 360? A estrutura circular? Ser uma espécie de painel?

– Foi uma combinação de tudo isso. A estrutura diferente, o fato de não ter protagonistas e nem antagonistas e também o tema das nove histórias, todas sobre pessoas boas tendo que tomar decisões na vida. Quase todo filme tem um vilão. Em 360 todo mundo quer fazer a coisa certa, até o camarada que está saindo do presídio não quer errar de novo. Achei isso interessante e muito humano. Cada vez mais encontro gente infeliz por ter que fazer o que precisa e não o que deseja, essas opções na vida que vão contra o que gostaríamos de fazer acontecem em função dos vários compromissos que vamos assumindo. O filme anda um pouco por aí e me interessei pelo tema. Acho que todo mundo já viveu ou vive isso, a sensação de estar na vida errada e não conseguir sair dela.

– Como foi, então, o trabalho com Peter?

– Foi muito bom. Esta é uma história pessoal dele, então ele esteve junto desde o momento de montar o elenco, durante as filmagens, até na montagem. Fora o prazer de compartilhar ideias com alguém tão criativo, ganhei um amigo. Ontem (terça) encontrei-o aqui em Viena, e ele disse que, apesar de críticas duras que recebemos, acha que este é um dos seus melhores trabalhos e se sente feliz e orgulhoso por ele. O cara é mesmo muito ponta firme.

– Me fala um pouco sobre a escolha do elenco.

– Cada caso foi um caso neste elenco. Eu precisava de alguns nomes para colocar a foto no poster e como o Jude (Law) uma vez me disse que gostaria de fazer algum trabalho junto em alguma oportunidade resolvi consultá-lo e ele topou. Ele faz uma espécie de Zé-Mané, vendedor de auto-peças, acho que isso foi um desafio interessante para quem faz sempre o “rei da cocada preta”. Chamei a Rachel (Weisz) pois gosto dela e de sua maneira insegura, sempre tentando achar um jeito de fazer melhor.

– E os brasileiros?

– Maria Flor e Juliano (Cazarré) vieram porque, além de gostar muito deles pessoalmente, acho que ambos estão no alto da lista dos melhores atores de sua geração. Por sorte ambos falam inglês com fluência de um nativo. O Juliano faz uns papeis de bronco na TV mas na verdade é um cara extremamente culto e altamente preparado. (Anthony) Hopkins foi uma aposta e me surpreendi por ele ter topado. Nosso cachê era muito baixo. Ele ficou muito feliz em fazer o filme e arrebenta na sua cena numa reunião do AA. Todos os outros atores são astros em seus paises de origem. Foi uma espécie de dream team.

– Alguma das histórias do filme toca você mais que outras?

– Atualmente a que gosto mais é a do Ben Foster e da Maria Flor. Gosto muito da história do motorista do mafioso também, com aquele final surpreendente com a garota eslovaca. O ator que faz o motorista é uma espécie de Wagner Moura na Rússia. Quando o vemos no filme não gostamos dele, mas pouco a pouco, de maneira muito sutil ele faz o personagem nos conquistar. O Jamel Debbouze, o dentista francês também me chocou ao dirigi-lo. Sem dizer nada ele consegue expressar tudo, é um dos melhores atores com quem já trabalhei na vida.

Meirelles: “A gente tem que tomar cuidado pois eles (os jornalistas destrutivos) são capazes de matar sua alegria de criar”

– Você trabalha mais uma vez com o Daniel Rezende, na montagem, e com o Adriano Goldman na fotografia, com quem você fez Som e Fúria. Como os dois ajudaram você na concepção e finalização do filme?

– Roteirista, fotógrafo, montador e diretor são as pernas que colocam um filme em pé. Tenho a sorte de ter amigos muitos talentosos como  o Adriano e o Daniel. Aliás, enquanto eu escrevo isso o Adriano está em Oklahoma filmando com Meryl Streep num projeto do George Clooney e o Daniel está dirigindo a segunda unidade e depois vai montar o RoboCop do Zé Padilha, em Toronto. Tudo da fotografia e montagem do filme é discutido. Antes de eu dizer o que está na minha cabeça, ouço muito o que estes dois artistas estão trazendo para a mesa. O grande segredo de uma direção eficiente é agregar parceiros talentosos e deixar que eles trabalhem como sabem. Já vi colegas chamarem estes caras supertalentosos, mas depois ficarem dizendo como eles devem fazer o trabalho deles. Grande erro.
– Você acha que um dos motivos das críticas que o filme recebeu é que lá fora sempre esperam de você um novo Cidade de Deus?

– Talvez seja isso mesmo, mas já aprendi a tomar porrada e continuar em pé. Lembro que, quando Cidade de Deus foi lançado, O Globo deu o bonequinho saindo da sala, o que significa “péssimo”. Disseram que era um filme publicitário, cosmético, subproduto de filme de gangue americano entre outros comentários. Parece que, com o tempo, estas vozes se foram e o filme ficou. Sei que isso acontece às vezes, então prefiro não ler o que escrevem sobre o meu trabalho para ter vontade de continuar trabalhando. Tem jornalistas e críticos muito destrutivos soltos por aí, é uma selva, a gente tem que tomar cuidado pois eles são capazes de matar sua alegria de criar. Parece que a maioria dos críticos americanos não entenderam o filme mesmo. Eu também não entendo qual é a graça dos filmes de super-herois que eles fazem, então estamos todos na mesma barca.

– Quais são, para você e agora, depois de pronto, as principais qualidades do 360?

– O (Luiz Carlos) Merten, crítico de O Estado de S. Paulo, resumiu isso para mim. Ele acha que 360 é meu melhor filme por ser adulto, por conseguir lidar com situações e emoções delicadas, íntimas. Fazer um filme onde um cara malvado está tentando matar um cara bonzinho, como em Cidade de Deus, é mais tranquilo, todo mundo entende o que está acontecendo – já lidar com estas emoções pequenas que atravessam nossa cabeça e nosso coração é mais complicado. Elas são fugidias. Quem não tem o hábito de prestar atenção nas próprias emoções pode não ver nada no filme. Eu gosto dos olhares, dos sorrisos, dos vacilos dos personagens.

– Com esses atores de nacionalidades tão diferentes, o resultado agradou você?

– Acho que o trabalho dos atores neste filme é muito sólido. Não há uma só frase ou olhar de ninguém ali que não esteja precisa, no lugar certo. Aliás, sou muito chato em relação a atuação. As vezes num filme, quando um garçom entra apenas para dizer “Sua conta, senhor”, e isso não está natural, eu sou arrancado da história. Acho imperdoável, uma fala que seja, fora do tom. Todo mundo tem sua loucura, esta é a minha.

– Como é o sistema de produção em que você trabalha nas produções internacionais? Você faz o filme e depois negocia a distribuição?

– É assim que grande parte dos filmes brasileiros são feitos, mas isso só é possível quando usa-se dinheiro público para produzir o filme. No esquema que trabalho não há essa facilidade: para financiar um filme o que se faz é montar o projeto com roteiro, elenco e direção, leva-se para um mercado internacional, vende-se o filme antecipadamente para vários países e, com esses contratos como garantia, levanta-se dinheiro para rodá-lo. É por isso que sempre precisamos ter uns dois ou três nomes conhecidos no elenco. Um comprador da África do Sul, por exemplo, vai prestar mais atenção num filme que esteja a venda que tenha o Jude Law, do que um onde ele não conheça os atores.

– Já se sentiu tentado em aceitar trabalhar no modelo hollywoodiano?

– Já. Sempre aparecem projetos que me interessam, mas, como o sistema de trabalho num estúdio não me atrai, consigo sempre resistir. Comparado com o esquema que expus acima, quando se faz um filme de estúdio a coisa acontece de outra maneira. Eles bancam o filme todo e contratam todo mundo. A relação de trabalho que se estabelece portanto é a de patrão e empregado, diferente da relação de parceria ou de sociedade, que é como prefiro trabalhar.

– Como está sendo o lançamento nos EUA e na Europa?

– Estreou nos EUA no dia 10, em poucos cinemas. Vai entrar aos poucos, em outras salas, lançamento em plataforma, como chamam, onde vão adicionando salas a cada semana. Na Europa começa a entrar por agora. Até o final do ano o filme ainda estará sendo lançado. Não é um filme caro então não precisa e nem foi feito para fazer uma super bilheteria. No Brasil a expectativa é que faça 300 mil espectadores. Vamos ver como vai andar.

– Como vai indo o projeto de Nemesis? O Globo falou em Robert Downey Jr ou Javier Bardem para o papel principal.

– Não fechamos o elenco ainda, está em processo mas só vamos anunciar no festival de Toronto. Não sei de onde O Globo tirou isso.

– Você pediu no twitter sugestões para o papel Jacqueline Kennedy. Alguma interessante?

– Nenhuma sugestão. Acho que não me levaram a sério. Continuo aberto a palpites no @fmei7777.

– Pra mim, a Rachel Weisz daria uma ótima Jackie Kennedy.

– Ela seria uma boa Jacqueline Kennedy, mas é uns 10 anos mais velha do que a personagem. Por isso estou neste conflito se chamo ou não.

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