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Escravo do estilo

Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio: antagonistas submetidos a clímax vazio

Jamie Foxx e Leonardo DiCaprio: antagonistas submetidos a clímax vazio

Como nos dois Kill Bill, Quentin Tarantino se deu o presente de mergulhar em outra de suas referências cinematográficas: o faroeste-espaguete sub-Sergio Leone, costumeiramente de tão baixo status quanto os filmes de kung fu que inspiraram os dois (ótimos) filmes com Uma Thurman. Depois da excelente abertura de Bastardos Inglórios (2010), que se passava na II Guerra mas era totalmente calcada no western italiano, as expectativas eram bem altas para este Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012).

Tarantino alia a releitura de um gênero por ele querido a uma inversão cênica: dá o protagonismo a um cowboy negro (Jamie Foxx), um escravo libertado por um caçador de recompensas alemão (Chistoph Waltz), e que só pensa em libertar sua mulher (Kerry Washington, linda), mantida escrava na fazenda de um cruel senhor de terras (Leonardo DiCaprio).

Um cowboy negro não é exatamente uma novidade já foi tema de outra releitura (e um clássico do cinema): Banzé no Oeste (1974), de Mel Brooks. Mas Tarantino leva o filme a uma segunda inversão, que resulta nos momentos psicologicamente mais interessantes de Django Livre: Django, o escravo, precisando fingir ser um mercador de escravos e tendo que mostrar todo um desprezo pelo negros prisioneiros como ele mesmo era até pouco tempo antes. Tentaram criar uma certa polêmica nas cenas em que negros tratam negros como subalternos – principalmente no que diz respeito ao personagem de Samuel L. Jackson -, mas é bobagem. Trata-se de uma situação dramática legítima e bem eficiente.

É pena que Tarantino se torne cada vez mais escravo do próprio estilo – só isso para explicar a razão de o filme ter quase meia hora a mais além de seu verdadeiro final. O turning point é um “confronto moral” entre os personagens de DiCaprio e Waltz que, na prática, é um clímax vazio, ancorado em uma premissa frágil e, parece claro, criado apenas para que um momento visual aconteça.

Tudo, a partir deste ponto, é barriga. Nem serve à história e nem Tarantino está tão inspirado para fazer só do estilo um momento antológico. Se, com isso,Tarantino está de novo querendo dizer que dita as leis em seus filmes (como o fez subvertendo a história em Bastardos Inglórios), já está na hora de parar.

O filme tem momentos ótimos, mas antes disso: a cena de abertura, o saloon, Waltz contando a lenda de Broonhilde tirando dramaticade das sombras projetadas da fogueira, e, para os cinéfilos, toda a brincadeira macaqueando o estilo dos spaghetti-westerns (com zoons indo e vindo, a mesma música de abertura do Django de 1966, música de Ennio Morricone, etc.) e o encontros dos dois Djangos – o de Tarantino e Franco Nero, o original de 1966, aqui naturalmente em outro papel em sua breve participação.

Na maior parte do tempo, Tarantino parece mais preocupado em contar bem sua história e menos preocupado em deixar seu estilo gritar. Ele é, claro, um grande cineasta e a prova é que, mesmo assim, o filme é, sim, cheio de um estilo colorido e inteligente próprio dele. A derrapada no fim, porém, não é um acaso: parece indicar que o diretor ainda não conseguiu totalmente a alforria de si mesmo. A questão é: será isso o que ele quer?

Django Livre (Django Unchained, Estados Unidos, 2012). Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Don Johnson, Quentin Tarantino, Franco Nero, Russ Tamblyn.

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