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Vidas cruzadas nos trilhos da estação

Celia Johnson e Trevor Howard: amor e culpa

Celia Johnson e Trevor Howard: amor e culpa

Antes dos grandes épicos que marcam sua carreira de diretor – como Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965) – David Lean dirigiu filmes “menores” na Inglaterra. O “menores” vai entre aspas por razões óbvias para quem viu alguns desses filmes: Desencanto (Brief Encounter, Inglaterra, 1945) só é menor no quesito dinheiro envolvido. Um drama intimista, Desencanto é um dos grandes filmes de amor do cinema. Sua simplicidade esconde a complexidade de suas emoções.

O filme é uma adaptação da peça Still Life, de Noel Coward, produzida por ele próprio. Lean e Coward mantiveram uma boa parceria naqueles anos, em quatro filmes: Nosso Barco, Nossa Alma (1942), que os dois dirigiram; Este Povo Alegre (1944); Uma Mulher do Outro Mundo (1945); e Desencanto. Curiosamente, não há créditos para o roteiro que, segundo o IMDb, é de Anthony Havelock-Allan, Ronald Neame (que dirigiria A Primavera de uma Solteirona, em 1969) e Lean. A omissão pode ter acontecido para reforçar Noel Coward como autor da história. Em todo caso, é o trio que concorreu ao Oscar pelo filme, como melhor história – Desencanto também concorreu a direção e atriz.

O filme tem um início exemplar: na lanchonete de uma estação de trem, a vida segue normal para os personagens que depois vamos ver que estão sempre por ali, mas em trânsito (o guarda da estação, a dona do lugar, a empregada mais jovem dela). Em um canto, estão Celia Johnson e Trevor Howard, em uma mesa. Não dizem nada, até que entra uma amiga faladeira de Laura (Celia), dizendo coisas sem importância. Chega o trem de Alec (Howard) e ele precisa ir. Se despede de Laura sem palavras, apenas com uma mão em seu ombro.

Sem palavras, mas com uma eloquência e tanto. O filme começa com o casal central sendo mostrado como um figurante, para aos poucos ir ganhando o protagonismo na cena. Depois, o filme entra o foco em Laura, voltando para casa com a amiga chata. E é quando ouvimos sua voz interior falando de seu momento turbulento. E só quando ela chega em casa e está sentada na poltrona em frente ao marido meio sem graça que faz palavras-cruzadas é que ouvimos seus pensamentos começarem a contar a história.

Assim, a história é narrada em flashback por Laura. Grande sacada é ela fazer essa narração mental ao marido – a quem, claro, não pode contar nada de verdade. Ela vive em um casamento tranquilo, no subúrbio e vai semanalmente à cidade para movimentar um pouco a vidinha: fazer compras e ir ao cinema. Um dia conhece o médico Alec, quando este a ajuda a se livrar de um cisco no olho na lanchonete da estação. Uma série de outros acasos, por um lado, e a insistência de Alec, por outro, levam a outros encontros inocentes – até que eles se apaixonam, coisa que percebemos bem antes deles.

Ele também é casado e os encontros dos amantes, em meio à crise moral permanente de Laura, precisam ser nos poucos dias em que Laura vai à cidade. São encontros pontuados pela estação de trem, locação que abre e fecha o filme. Laura e Alec são vidas que se cruzam, como trens que se cruzam nos trilhos da estação. A luz do trem passando nos rostos dos personagens, os sons, tudo é usado como reflexo das emoções dos personagens. Perto do fim, tudo isso somado a um close do rosto transtornado de Celia Johnson é um plano espelho de outro, com o rosto de Greta Garbo como Anna Karenina (1935).

Evidentemente, é preciso pensar como os personagens e entender seus dilemas, massacrados por anos e anos de liberação sexual no cinema. E, considerando que tudo na história de Laura e Alec – com exceção da cena inicial cheia de lacunas – nos é mostrada pelo ponto-de-vista da mulher (e em um momento especialmente turbulento), é preciso imaginar o que é realista e o que está sublinhado pelas emoções de Laura. Note: nas palavras cruzadas do marido, “romance” cruza com “delírio”… Ela pode até estar ouvindo Rachmaninoff na cabeça dela enquanto relembra sua história de amor clandestina.

Os personagens paralelos voltam sempre a aparecer, nos lembrando que outras vidas continuam a acontecer, sem se darem conta do drama O quociente de culpa que arrasa Laura por quase todo o filme também pode refletir um pouco das emoções travadas que costumamos atribuir como o jeito de ser tipicamente britânico daquela época. Em todo caso, se o espectador se transportar para a pela de um dona-de-casa do subúrbio inglês e um casamento monótono dos anos 1940 – e ele deveria ser capaz disso – vai compreender o tumulto interno de Laura e dar um novo sentido ao “Concerto para piano número 2” de Rachmaninoff.

Desencanto (Brief Encounter, Reino Unido, 1945). Direção: David Lean. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond.

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