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Fora da armadura

Stark fica fora da armadura boa parte do filme - e isso é bom

Stark fica fora da armadura boa parte do filme – e isso é bom

Um problema recorrente diagnosticado nas sequências dos blockbusters: “crescer demais”. Quem decide (estúdio, produtor e/ ou diretor) acha que o novo filme deve ser sempre maior que o exemplar anterior e, muitas vezes, essa bolha inflada acaba estourando – artisticamente ou até financeiramente. Homem de Ferro 3 (Iron Man Three, EUA/ China, 2013) chega perto disso, e se não estoura é porque algumas das qualidades dos filmes anteriores ainda estão lá e seguram a onda.

A principal dessas qualidades é seu ator principal, que domina a cena completamente: Robert Downey Jr.Quantas vezes você viu um ator tão senhor de seu personagem em uma franquia de super-heróis? Não é para menos, já que Tony Stark mais se moldou ao ator do que o contrário desde o primeiro filme – e já vamos no quarto (se contar Os Vingadores – The Avengers, 2012).

Stark continua muito engraçado em sua arrogância e autosuficiência, e para reforçar isso o filme o coloca boa parte do tempo contracenando com um garotinho, mostrando um instinto paterno muito particular. O maior acerto do filme é justamente colocar Downey Jr./ Stark em boa parte da história tendo que se virar sem a armadura do Homem de Ferro.

Por outro lado, o principal problema é que o filme parece tentar compensar isso no final com a absurda aparição de dezenas de armaduras diferentes – o que nos leva ao diagnóstico do início do texto. O que Homem de Ferro 3 mostra em seu clímax é uma imensa banalização do personagem e de tudo o que foi visto nos dois primeiros filmes e um passo largo depois do qual é impossível voltar ao antigo status quo, digamos assim.

A não ser que, depois, se tome uma decisão de roteiro absolutamente destrambelhada, que é o que o filme prefere fazer, com a desculpa de “retornar a como éramos antes”. Mas o problema de roteiro é primário desde o começo desse clímax: se as tantas armaduras existiam, porque não foram usadas antes, logo se pergunta o espectador? O que nos leva a imaginar a pior das hipóteses: cada uma delas é um boneco a mais para ser vendido em ações de licenciamento, apenas isso.

Mas antes disso Homem de Ferro 3 vai muito bem, obrigado. Mostra Stark fragilizado como nunca, abalado com os eventos cósmicos que enfrentou em Os Vingadores. Interessante: é como se tivéssemos aqui a densidade psicológica que o filme do supergrupo resolveu não ter (e que, não tendo, se saiu muito bem, vale a ressalva). Assim, Stark começa a se questionar se pode mesmo proteger sua namorada Pepper Potts (Gwyneth Paltrow). E será testado nisso com a aparição do vilão Mandarim (Ben Kingsley) e de mais um rival (vivido por Guy Pearce). A cena da destruição da mansão é o grande momento explosivo do filme, muito superior à cena final, inclusive porque é mais dramático.

O retrato do Mandarim – de certa forma uma atualização de um vilão que só fazia sentido mesmo na Guerra Fria, quando foi criado – pode irritar os fãs mais xiitas (terá o filme não querido comprar uma confusão com a China?), mas é um dos mais surpreendentes nos filmes recentes de super-heróis. A mudança na direção – de Jon Favreau para Shane Black, que dirigiu Downey Jr. no elogiado Beijos e Tiros, de 2005, ainda em um momento difícil na problemática carreira do ator) – não se mostrou muito significativa, mas, sim,  no roteiro (que ele escreveu com Drew Pearce) com essa maior profundidade e algumas viradas de roteiro muito boas, apesar dos pesares – e é uma pena que Rebecca Hall não seja melhor aproveitada.

No fim, o saldo do Homem de Ferro 3 é positivo, mas com ressalvas: nunca é demais lembrar que fogos de artifício, por isso só, não justificam tudo.

Homem de Ferro 3 (Iron Man Three, Estados Unidos/ China, 2013). Direção: Shane Black. Elenco: Robert Downey Jr., Ben Kingsley, Guy Pearce, Gwyneth Paltrow, Rebecca Hall, Don Cheadle, Jon Favreau.

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