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Muita gente tendo certeza de muita coisa. Mas onde o ser humano está envolvido, não se pode ter certezas absolutas. Muita coisa pode acontecer ou definir rumos.

– “Protestos sem um foco específico não dão em nada”
Quem sabe? Há muita coisa aí para ser protestada, não dá para esperar uma passeata de 100 mil sobre cada uma dela (PEC-37, Copa no Brasil em qualquer contrapartida prática na infraestrutura, serviços públicos de merda, Marco Feliciano, bolsa-estupro, corrupção generalizada e descarada na classe política que já não representa mais ninguém qualquer que seja o partido e, sim, o aumento nas passagens de ônibus em locais onde R$ 0,20 fazem diferença no orçamento de MUITA gente). O foco é difuso? É. Mas isso também pode ajudar fazendo os governos (no plural) ficarem meio perdidos, sem soluções fáceis e – quem sabe? – pensando que passaram dos limites na despreocupação com o povo e é melhor mudar um pouco a postura mesmo porque estão cobrando. PODE ser que, no fim, não resulte em nada. E PODE ser que resulte em algo.

– “As manifestações viraram festa, moda, saudosismo da luta contra a ditadura de quem não a viveu”
Deve ter gente, claro, que vai pela onda. É justo resumir a manifestação a isso? Centenas de milhares de pessoas no Brasil, fora as centenas em Los Angeles, Nova York, Boston, Dublin, na Itália, etc, estão TODOS só por uma moda? Tem gente que vai por solidariedade aos amigos ou até a quem não conhece, tem gente que vai porque é marxista-leninista (ou outro “ista” qualquer), tem gente que vai por protestos específicos, tem gente que vai porque quer mostrar que alguma coisa tem que mudar na FILOSOFIA pela qual o país funciona.

– “As manifestações estão sendo usadas politicamente”
Será mesmo? É claro que é política, e que há quem vá tentar. Partidos nanicos da esquerda radical estão pegando o bonde andando, por exemplo. Mas que lucro eles estão tendo em manifestações onde um dos grandes bordões é “o povo unido não precisa de partido”? Ah, é o PSDB? E o protesto em frente ao Palácio Bandeirantes? E a PM paulista (comandada pelo governo) sentando o sarrafo em todo mundo na semana passada? O mais lógico, pra mim, foi dito pela comentarista da Globo News, Renata Lo Prete: “PT e PSDB adorariam empurrar para o outro a conta desses protestos, mas não podem. Estão abraçados nessa”.

– “Atores ficam tirando fotinho maquiados, mas não vão pra rua participar”
Será mesmo? Bruno Gagliasso, Sergio Marone, Eriberto Leão, Thaila Ayala, Débora Nascimento e outros estavam na manifestação carioca. Além disso, na era das comunicações em que vivemos, é importante, sim, atos simbólicos de apoio que cheguem a muito mais pessoas e sensibilizem essas pessoas. Acho importante que Fernanda Montenegro diga, como disse, que apoia o movimento e que ele reinvidica “a essência do que o Brasil precisa: escola, saneamento, liberdade de expressão”.

– “A mídia burguesa (ou golpista ou de direita ou conservadora, etc, etc, etc) é contra os manifestantes”
Acompanhei Globo News, Band News, Globo e até a Rede TV ontem, das 18h à meia-noite. Não vi nada demais das emissoras, mas vi muita gente no Facebook falando roboticamente contra a mídia e sendo desmentido o tempo todo por ela. “O Jornal Nacional não está falando sobre o quebra-pau em Belo Horizonte!”. Falou. “A mídia não está mostrando o que aconteceu em Porto Alegre!”. Mostrou. “A Globo News está falando mal dos manifestantes!”. O tempo todo comentaristas convidados que eram antropólogos e cientistas sociais estavam francamente pró-manifestações. “Mas a Leilane ficou o tempo todo dizendo que estava com medo da violência”. Quando vamos aprender a conviver com a outra opinião? “Só mudaram agora porque jornalistas foram agredidos”. “Só mudaram agora para se aproveitar da situação”. Ninguém é inocente, claro, mas desconfio também de que nem todo jornalista é um Lex Luthor em potencial. Se a imprensa reagiu ao fato de que jornalistas foram agredidos, é natural, como também é natural a mídia seguir a população depois de um tempo tentando entender o que se passa.

– “A mídia reduziu tudo ao vandalismo”
No começo. Na quinta-feira, a coisa já mudou. Além da teoria da conspiração corporativa, vamos entender o que é uma notícia: um epíteto que resume bem é “notícia não é o cachorro mordendo o homem, é o homem mordendo o cachorro”. Ou seja, é o que sai do normal. Há uma manifestação na cidade? Taí a notícia. Na manifestação rolou um tumulto generalizado? Taí a notícia, o que fugiu do normal. É superficial, óbvio, e também sensacionalista. Não analisa as razões pelas quais as manifestações estão acontecendo, mas pode ser (repito, PODE SER) apenas uma decisão editorial das redações (que são constituídas por pessoas diferentes umas das outras e, portanto, também as redações são sensivelmente diferentes umas das outras). Além disso, a TV aberta é, por natureza, superficial e sensacionalista – o telejornal tem 30 minutos, o resumo obrigatório ajuda a provocar isso tudo (o que se sobressai é o espetáculo, para segurar a audiência). Um canal de notícias na TV paga tem condições (espaço e tempo) de analisar melhor o fato, assim como um jornal tem sobre a TV aberta e uma revista semanal tem sobre o jornal. Pode ter havido decisões vindas de cima sobre como cobrir as manifestações? PODE. Pode não ter havido? TAMBÉM PODE.

– “O vandalismo ajuda a manifestação”
Será mesmo? A PM partir pra porrada deve ter ajudado: o número muito maior de manifestantes nesta segunda deve ter sido em solidariedade pelo que aconteceu semana passada. Ali, ficou claro: a PM partiu pra cima e o que se viu foi o resultado disso. E ontem, quando, no Rio, foram os manifestantes que partiram pra cima? Não é lógico pensar que, desta vez, o apoio popular poderia ser reduzido?

– “A mídia vai usar o vandalismo de ontem contra a manifestação”.
Será mesmo? O que mais se ouviu é a frase “um pequeno grupo”, que “não representa” todos os manifestantes… Agora, repare: as certezas que surgirão a partir daí são frontalmente antagônicas. Há quem vá dizer: “Isso é porque a mídia está tentando minimizar isso aí que é realmente a força do movimento”. E há quem vá dizer: “A mídia centrou o foco no vandalismo para tirar a legitimidade do movimento”.

– “Há infiltrados nas manifestações para causar esse vandalismo e desmoralizar as manifestações”
Pode ser. Mas no Rio isso aconteceu lá no final da manifestação e não na hora do 100 mil. Se era para causar o caos, por que não antes quando havia mais gente? E sabe-se também que baderneiros existem mesmo. Quem passou pela volta da Arena Pernambuco sabe que isso existe até para pegar um ônibus.

Então, menos certezas e mais dúvidas, por favor. Para todos os lados.

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