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Um novo Super-Homem. Mas melhor?

Henry Cavill (Super-Homem) e Amy Adams (Lois Lane): a culpa não é deles

Henry Cavill (Super-Homem) e Amy Adams (Lois Lane): a culpa não é deles

O cinema vive uma época de dessacralizar seus mitos: as reinvenções perderam o receio de mexer demais com os ícones e versões mais ousadas são incentivadas pelos estúdios. A ação de mudar não é boa ou má em si mesma. Às vezes dá certo, como na trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida por Christopher Nolan. E às vezes não, como em O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013).

Após a trilogia dedicada ao Batman, o roteirista David S. Goyer e Christopher Nolan (aqui como produtor e co-autor do argumento) se debruçaram sobre o outro grande herói da DC, o Super-Homem – apenas dando a direção a Zack Snyder. As ousadias da equipe em Batman Begins (2005) resultaram no primeiro filme que mostrava exemplarmente quem era o Homem-Morcego e por que ele fazia o que fazia e daquela maneira (a despeito do bom trabalho de Tim Burton em seus dois Batmans e considerando que os dois seguintes de Nolan foram levando Batman a um tipo de filme à margem das aventuras de super-heróis). O Homem de Aço, ao contrário, parece simplesmente não compreender bem o herói que põe na tela.

O Super-Homem há muito tempo é um herói difícil de se lidar, em qualquer mídia. Acertar o tom com ele é difícil, mas não impossível (a série animada de Bruce Timm e Paul Dini ou a minissérie em HQ As Quatro Estações são bons exemplos mais ou menos recentes). É um personagem que se sustenta em valores “antiquados” ou “fora de moda”, que contrastam com heróis mal encarados e sombrios, muito em voga atualmente. A tentação em “modernizá-lo”, torná-lo mais “profundo” é grande e muitos não resistem a ela.

Superman – O Retorno (2006), por exemplo, já havia equilibrado mal esses elementos. O filme de Bryan Singer já havia simbolicamente escurecido o azul e o vermelho do uniforme do super-herói. Nele, o personagem sofria porque sua amada Lois Lane estava com outro e porque, com sua superaudição, ouvia sempre os pedidos de ajuda, mas nem sempre podia atendê-los. Em O Homem de Aço, também simbolicamente, essas cores do uniforme chegam muito próximas da escuridão total – e o amarelo do escudo no peito sumiu. É um reflexo do desequilíbrio quase total do filme nesse aspecto.

Com a mão pesada de sempre de Zack Snyder, há pouquíssimo espaço para romance ou humor em O Homem de Aço. O sentimento que domina o filme é o medo. Repare que, na construção do personagem, não há quase nada que mostre sua ligação afetiva com o mundo adotivo – nem mesmo seus pais terráqueos (vividos por Kevin Costner e Diane Lane) encontrando a nave com o bebê e decidindo ficar com ele.

Depois do prólogo longo demais passado em Krypton, já encontramos Clark Kent garoto, na escola, começando a sentir seus superpoderes, e apavorado com isso. Daí pra frente, o que se vê são Jonathan e Martha Kent sempre com medo de tudo, insistindo para que Clark não mostre suas capacidades em público – nem mesmo para salvar crianças de um ônibus escolar da morte certa.

Este é o Super-Homem “pós-11 de setembro” que Snyder tenta emplacar. Onde a tônica é o medo do estrangeiro. Para isso, antes mesmo de Clark aparecer como o super-herói, já surge uma invasão alienígena dos remanescentes do planeta destruído dele. O general Zod (Michael Shannon) e sua turma chegam à Terra em busca de Kal-El (o nome kryptoniano do Super-Homem) por causa de um McGuffin: o pai biológico depositou no DNA do filho um dispositivo que poderia trazer à vida vários embriões kryptonianos e, assim, fazer o povo renascer em outro lugar, etc., etc.

Pela lógica de O Homem de Aço, portanto, antes de ser um herói da Terra, o Super-Homem é “um deles”. De vez em quando ele diz “eu cresci aqui no Kansas”, mas o filme não o ajuda a convencer muito. Os flashbacks da infância e juventude do herói em Smalville deveriam servir para isso, mas, embora bem cuidadas, também não ajudam tanto. Começam bem com a infância do personagem, mas desandam na juventude e culminam na constrangedora e indefensável cena do destino final de Jonathan Kent.

Essa inversão do roteiro – os alienígenas primeiro, a aparição do herói depois – torna totalmente inconvincente qualquer aceitação do Super-Homem pelos habitantes da Terra (vulgo Metrópolis). Tão inconvincente quanto o romance entre o herói e Lois Lane (Amy Adams, correta), que não tem tempo algum de ser desenvolvido e parece brotar do nada. Ou ter sido posto lá por obrigação, como tudo o que envolve o personagem de Perry White (Laurence Fishburne): suas cenas em meio à destruição de Metrópolis poderiam ser retiradas do filme sem prejuízo algum. Laurence não está sozinho: a ótima Diane Lane também não tem muito a fazer.

A culpa não é do ator, Henry Cavill, que faz o que pode. Snyder tem a sua parcela, claro, apesar de aqui estar quase totalmente despido de suas maneirices mais óbvias e supérfluas. Mas ele encontra outras: este filme tem os voos mais mal filmados da história do Super-Homem – e não por incompetência, mas por “decisão criativa”, o que talvez seja ainda pior. Nada pode estar no céu que é filmado como se um cinegrafista amador estivesse tentando ajustar o foco. Estilo documental? Bem, estilo é coisa pra se usar nos momentos adequados. Snyder, mestre do exagero, acha que descobriu a roda e – como as alterações de velocidade das cenas em outros de seus filmes – usa sem parar o recurso.

Foi de Snyder também a decisão de roteiro mais polêmica do filme (e pule este parágrafo se não quiser saber o que é). O diretor deu declarações justificando na base da “modernização”, do Super-Homem para os “novos tempos”, a decisão de fazer o personagem assassinar Zod no final do filme. Disse que o roteiro foi desenhado para não dar alternativas ao personagem: além de não ser verdade, é chamar os espectadores de burros por supostamente não imaginarem que uma página rabiscada no dia da filmagem já poderia ter alterado a cena. E finaliza dizendo que o Super-Homem que surge após esta cena é “um Super-Homem que nunca vimos antes”. Bem, não um Super-Homem melhor. E, em termos mais filosóficos, poderíamos muito bem dizer que se trata de outro personagem, não o Super-Homem.

A dita cena – criada apenas para chocar a plateia – é o ápice de uma hora final interessada apenas no barulho e na destruição em larga escala. Conta-se nos dedos os momentos em que o Super-Homem salva diretamente alguém – a não ser que seja alguém caindo próximo a ele. É este o herói para os “novos tempos”? O roteiro de Goyer tem outras soluções de roteiro lamentáveis (entre eles, a aparição do uniforme do herói lembrando um dos piores momentos de Batman & Robin, 1997; e Lois Lane sendo convocada para a nave e depois o filme esquecendo de explicar o porquê).

A vontade de “fazer algo diferente”, de causar um sensacionalismo ao fazer uma versão radical do super-herói base para todos os outros, de não repetir o tom romântico-dramático de Superman – O Retorno e de seguir a moda dos heróis sombrios era tanta que a equipe deste O Homem de Aço não percebeu que Batman e Super-Homem são heróis diferentes e que elementos que funcionam para um podem não funcionar para o outro. É um problema de conceito. E aí  o que começa errado desde o conceito dificilmente acerta mais à frente.

O Homem de Aço (Man of Steel, EUA, 2013). Direção: Zack Snyder. Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Russell Crowe, Diane Lane, Laurence Fishburne, Antje Traue, Ayelet Zurer.

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