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A responsabilidade de pensar

Hannah Arendt

Hannah (Barbara Sukowa) vê no julgamento de um nazista o que ninguém mais vê

Filmes, na maioria das vezes, são sobre pessoas ou fatos. Há fatos em Hannah Arendt (Hannah Arendt, Alemanha/ Luxemburgo/ França, 2012) e o filme leva o nome de sua personagem principal – mas é mais sobre uma ideia. Uma ideia que a personagem – uma filósofa alemã, judia – desenvolve quando asiste ao julgamento de um criminoso de guerra nazista. E uma ideia que causou desconforto em meio mundo.

Quando Adolf Eichmann é preso na Argentina pelo serviço secreto de Israel e levado para um julgamento em Jerusalém, em 1961, Hannah – que vive nos Estados Unidos desde que ela própria fugiu do nazismo e chegou a ficar em um campo de prisioneiros na França – pede para cobrir o acontecimento para a revista The New Yorker. E o que ela encontra lá não é um monstro nazista, como as pessoas apregoavam, mas um homenzinho bastante normal, um burocrata que fazia seu trabalho sem questionar – mesmo que esse trabalho fosse colocar judeus em um trem que tinha seu destino final em um campo de extermínio.

Para ela, Eichmann não era um monstro – não tinha o demônio dentro de si, ou coisa que o valha. Nem mesmo odiava os judeus. Ele era de uma classe ainda pior: o de pessoas absolutamente comuns que fazem o mal sem nem mesmo pensar estarem fazendo. Uma ação, para eles, absolutamente banal. O que a levou ao termo “banalidade do mal” e a todo um estudo sobre a natureza do mal, que ela levou em frente pela vida.

O filme de Margarethe von Trotta utiliza cenas reais do julgamento – é o verdadeiro Eichmann que surge na gaiola de vidro no tribunal, e o público pode compartilhar ou não a visão de Hannah. A ideia de que um nazista não seria necessariamente um monstro não caiu nada bem entre os judeus – a filósofa foi acusada de estar defendendo Eichmann. Pior ainda foi afirmar, em sua série de artigos para a revista, que líderes judeus colaboraram com o Holocausto – uma questão em que o filme, aliás, não avança tanto, mas deu ainda mais dor de cabeça para Arendt, que sustentou sua posição praticamente sozinha (perdendo, inclusive, a amizade de pessoas próximas e queridas).

O grande momento do filme é a cena em que a filósofa resolve falar sobre a polêmica, depois de muito tempo recusando responder às críticas recebidas. Isso se dá em um auditório da universidade em que Hannah é professora, e a interpretação de Barbara Sukowa dá altivez à explanação de Arendt. É no discurso que Hannah Arendt se sai melhor: ao acusar o não-pensar como a abertura para um tipo de mal, também, e, portanto alertar para a responsabilidade que todos temos de pensar.

Hannah Arendt (Hannah Arendt, Alemanha/ Luxemburgo/ França, 2012). Direção: Margarethe von Trotta. Elenco: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch.

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