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A lista de Guimarães Rosa

Cartas e documentos são combinados com filmes antigos do cotidiano alemão

Cartas e documentos são combinados com filmes antigos do cotidiano alemão

Guimarães Rosa foi cônsul -adjunto brasileiro em Hamburgo, Alemanha, em uma época e tanto: de 1938 a 1942. Ou seja, do nazismo no ápice e às vésperas da II Guerra Mundial até o efetivo rompimento do governo brasileiro com os países do Eixo (com mais de dois anos de andamento da II Guerra). Um período perigosíssimo, mas que o futuro autor de Grande Sertão: Veredas viveria não passivamente – mas concedendo vistos para que judeus fugissem da Alemanha para o Brasil.

O documentário de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela – brasileiras que fizeram o mestrado em Comunicação e Cinema, respectivamente, em Berlim – resgata em detalhes esse período na vida do escritor combinando a narração de documentos oficiais e cartas aos depoimentos de sobreviventes e seus descendentes. O filme também usa muito cenas filmadas do cotidiano alemão daqueles anos, como forma de contextualizar o ambiente.

Nisso, é interessante que o filme trace uma mudança da visão inicial de Guimarães Rosa, como se ele fosse se conscientizando do que estava acontecendo na Alemanha. A chegada do escritor é pontuada por uma carta em que ele narra os alemães como “um povo feliz e que gosta de se divertir”. Para ele, tudo parece um mar de rosas (o trocadilho não é intencional).

Para essa tomada de posição, foi fundamental o envolvimento de Aracy, na época funcionária do consulado, e com quem Guimarães Rosa se casaria. A precisão das informações dão a dimensão dessa ação: em um momento, revela-se que, no primeiro semestre de 1939, o número de vistos de turista para o Brasil emitidos pela embaixada em Berlim foi zero; pelo consulado de Hamburgo, 96! Guimarães Rosa ia contra as determinações do governo brasileiro, que sabia que mesmo os vistos de turista nessa situação eram, na prática, fuga para a imigração.

Os depoimentos daqueles que foram salvos aparecem após os nomes serem localizados em uma lista. Naturalmente, se já não era antes, é muito difícil não lembrar nesse ponto de A Lista de Schindler (1993). Referência intencional ou não, a solução funciona.

Mas um grande momento em particular do filme é a aparição de Guimarães Rosa, em carne-e-osso, em uma entrevista para a TV alemã nos anos 1960 – falando sobre literatura, mas vale como um registro histórico impressionante e raríssimo do escritor em movimento e de sua voz. Uma bela cereja no bolo.

Outro Sertão (Brasil, 2013). Direção: Adriana Jacobsen e Soraia Vilela.

 

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