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A relatividade do sucesso

Nash Laila é a ascendente Shelly: aspirações a uma sub-Joelma

Nash Laila é a ascendente Shelly: aspirações a uma sub-Joelma

A música é rotulada (e autoassumida) como “brega”, mas já não é mais o brega de cantores como Amado Batista ou nem mesmo o pastiche de um Reginaldo Rossi. É uma leitura moderna que descende do forró eletrônico (o “plástico” do título não é à toa), do tecnobrega paraense e por aí vai. A partir daí, o longa pernambucano Amor, Plástico e Barulho (2013), de Renata Pinheiro, mostra o cotidiano da cantora de uma banda fuleira, mas que faz algum sucesso no bas-fond recifense, e uma das dançarinas dessa banda, que tem seu próprio sonho de se tornar cantora.

Maeve Jinkings (de O Som ao Redor) é Jaqueline, a cantora titular da Amor com Veneno que, apesar de ainda fazer algum sucesso, ter fãs e o respeito de programas dedicados ao gênero, nunca emplacou de verdade – a um nível sequer próximo da popularidade e o dinheiro de uma, digamos, Aviões do Forró – e começa a notar sinais do próprio declínio. É jovem, é bonita, mas já sendo tratada com um “no seu tempo, as coisas eram assim ou assado”. Não só isso, mas nota também a certa ambição de Shelly (Nash Laila), em busca de luz própria. Ela pode tomar seu lugar em pouco tempo.

O caminho que o filme segue não é o de confronto aberto entre as duas, mas a de uma tensão velada (bem velada: não chega nem próximo que se vê, por exemplo, nos momentos mais leves de A Malvada, 1950) e as desventuras paralelas de cada uma. Então, segue-se uma sequência de situações mais ou menos pitorescas do metiê, meio para mostrar que o sucesso é mesmo algo relativo.

(Ou deveria ser assim. No debate, a diretora e as atrizes defenderam com unhas e dentes esse recorte cultural, como se o filme tivesse se encantado de verdade com tudo o que mostra, sem um olhar crítico, mesmo que carinhoso, sobre tudo isso).

Na minha leitura, o que aquelas mulheres consideram como pontos ganhos pode muito bem ser visto como um constrangimento: a gravação de um clipe paupérrimo e pretensamente sensual, a participação em um programa brega na TV em um concurso de girar a cabeleira, etc. Talvez perceber isso esteja mais na observação possível do espectador do que na intenção do filme (mas, se for assim, ainda bem para o filme que ele permita a possibilidade dessa leitura, mesmo que não seja intencional).

Essa questão do sucesso relativo implica em códigos próprios que o filme de Renata PInheiro de vez em quando explora. Como, por exemplo, quando Jaqueline (numa interpretação muito boa de Maeve Jinkings) reclama que agora estão usando playback, como um aspecto do declínio artístico daquela cena brega – mas uma crítica que ressoa até em certos supershows internacionais. A essa altura, Jaqueline sabe que nunca vai deixar de ser uma sub-Joelma e o filme procura dar a ela um momento dramático contundente: o quase recitar de uma música, câmera focando seu rosto de frente, lágrima descendo. A ideia é boa, se não fosse a escolha da música: “Chupa que é de uva” demole qualquer intenção mais dramática da cena, dando lugar ao patético. É difícil saber que, nesse momento, o filme está levando a sério o sofrimento da personagem ou tudo é uma ironia.

Também não soa convincente a pontuação com a construção e lançamento de um grande shopping que aparece em comerciais de TV – um tal “Rio Mangue”, certamento é uma paródia ao Rio Mar, shopping novo de Recife cheio de denúncias ambientais. Parece uma crítica bastante deslocada no filme (que faz sentido basicamente para quem não é de Recife, mas certamente não para quem é de fora e não entende a piada interna).

No fim, Amor, Plástico e Barulho parece ter dificuldades para equilibrar deslumbramento com seu tema e reflexão sobre ele – a vida pessoal das personagens fora desse show business é pouco explorada. Por sorte, ele tem um bom andamento narrativo e um desfecho bem pensado – embora pudesse ter sido colocado de uma vez, em não em “pílulas”.

Amor, Plástico e Barulho (Brasil, 2013). Direção: Renata Pinheiro. Elenco: Nash Laila, Maeve Jinkings, Samuel Vieira.

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