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O grupo é o protagonista

Sílvia Buarque, Chico Diaz e Gero Camilo: triângulo amoroso (foto: Cláudio Lima)

Sílvia Buarque, Chico Diaz e Gero Camilo: triângulo amoroso (foto: Cláudio Lima)

O mundo do circo sempre foi fascinantes para os cineastas. Desde os maiores – como em O Maior Espetáculo da Terra, de 1952, dirigido pelo especialista em épicos Cecil B. DeMille – até os menores – como em Noites de Circo, de 1953, de Bergman, ou O Palhaço, de 2011. Os Pobres Diabos (Brasil, 2013) entra no rol dos que abordam os menores, e poucos serão menores que o Gran Circo-Teatro Americano, sobre o qual o filme do cearense Rosenberg Cariry se debruça.

Não há um protagonista entre os vários personagens do filme: Os Pobres Diabos é um painel sobre o duro trabalho em um circo desses e praticamente só essa nebulosa satisfação de “fazer arte” sendo o motor que leva o espetáculo à frente – porque  dinheiro há cada vez menos. Há muito mais melancolia aqui do que em O Palhaço, cujo ambiente é parecido, mas conta com um olhar mais otimista. Talvez haja mais relação com Noites de Circo, mas ái também há uma diferença.

O filme de Bergman tem histórias fortes para seus personagens, coisa que Os Pobres Diabos não possui. Todos os dramas pessoais parecem brisas diante do conjunto. O mais presente é o triângulo envolvendo os personagens de Chico Diaz, Sílvia Buarque e Gero Camilo, mas nem esse chega a explodir de alguma maneira – fica sempre no banho-maria. Outros só são contados de relance – como o interesse do dono do circo (Everaldo Pontes) pelo homem-forte Tarzan.

Essas várias situações, nenhuma sendo explorada ao fundo, ainda são jogadas de maneira meio abruptas para o espectador. De repente, os colegas do circo ficam mostram certa censura ao hábito – aparentemente já de muito tempo – da personagem de Zezita Matos de fazer churrasco com gatos da vizinhança. De repente, a evangélica casada que acha que o circo é coisa do demônio resolve se atracar vorazmente com o palhaço às vistas de todos, sem se importar se o marido está ali perto.

Outra inconsistência é a seguida reclamação de falta de dinheiro e aplausos dos integrantes em contraste com uma plateia mostrada pelo filme que não aparece nem um pouco vazia. Mesmo considerando que muitas crianças entraram porque “quem trouxer um gato entra de graça”, como diz a personagem de Zezita, é difícil imaginar que essa negociação era feita sem que os demais soubessem. De qualquer forma, os que os personagens dizem e o que o filme mostra nesse ponto de alguma maneira não casa.

Por outro lado, Cariry gasta um bom tempo mostrando a encenação de uma peça que mostra o cangaceiro Lamparina descendo ao inferno e comandando até o diabo. Todo o elenco participa da sequência (falada em versos) que mais homenageia os circos antigos e que se mescla de maneira meio desajeitada à trama do triângulo amoroso fora de cena. Mas também sublinha a entrega do afinado elenco, que demonstra uma intensidade de as próprias histórias particulares de seus personagens não têm. E a fotografia em scope de Petrus Cariry, filho de Rosenberg e também diretor, corresponde muito bem: o clímax pirotécnico do filme combina tristeza e beleza e, no espirito da melancolia que atravessa todo o filme, se torna o mais belo espetáculo daquela trupe.

Os Pobres Diabos (Brasil, 2013). Direção: Rosenberg Cariry. Elenco: Chico Diaz, Sílvia Buarque, Gero Camilo, Everaldo Pontes, Zezita Matos, Naneno Lira.

 

 

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