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Prosseguindo com o hino

André Gatti e Carlos Reichenbach: pai e filho e, entre eles, um parente desaparecido

André Gatti e Carlos Reichenbach: pai e filho e, entre eles, um parente desaparecido

Carlão Reichenbach aparece como um dos dois atores principais deste filme. Ele é o pai que recebe em sua casa (bastante surrada) no subúrbio paulista um filho recém-separado. Há um nítido desconforto entre eles, uma falta de comunicação e uma sombra: outro filho, que, durante a ditadura, deveria ter voltado de uma viagem a Rússia, mas nunca voltou. Avanti Popolo, de Michael Wahrmann ganhou um quociente emocional bastante grande por ser o último trabalho – e como ator – do quase sempre cineasta Carlão.

Sem rumo, o filho (André Gatti) localiza na casa do pai rolos em super-8 filmados pelo irmão. E acaba se dedicando a catalogar esses rolos e, depois de consertar um velho projetor, assisti-los. O p0ai vive uma vida paralela a isso, basicamente passando o tempo com sua cadela, Baleia (referência muito provável à cadela de Vidas Secas). Eles chegam a travar um diálogo em que um está falando de uma coisa e o outro, de outra.

Um aspecto narrativo interessante do filme é a filmagem “do nada”. O filme começa com uma viagem de carro pela noite do subúrbio paulistano, em ruas estreitas e até sem saída. Não se sabe onde o carro esta indo e, no fim, não importa muito porque a viagem é sem rumo mesmo. No final da sequência, é revelado que a história não tem relação direta com o carro ou seu motorista: é quando o filme encontra, na rua, o seu protagonista, o personagem de André Gatti.

Em outros momentos, só se ouvem ruídos, respirações, com os personagens fora de cena. Pode ser o personagem de Carlão, que estava abaixado tentando encontrar a bola da Baleia, que caiu num bueiro e só entra no quadro quando se levanta. Ou tudo o que acontece fora do quadro praticamente único da sala.

A sala é filmada apenas de um ponto de vista – na verdade, dois, sendo um apenas mais próximo do que o primeiro. Os dois personagens transitam por ali e raras vezes ao mesmo tempo. Também interagem com pouca gente: destaque para o sujeito que conserta (mais ou menos) o projetor e criou o movimento Dogma 2002 (no qual até filmar é proibido) e o taxista que tem uma coleção de hinos de todos os países do mundo.

Há muito rigor nos enquadramentos. As paredes desgastadas são enquadradas como artes plásticas – e, num certo momento, confundidas com os quadros na parede, também desgastados. A projeção do super-8 na parede, por cima do rosto do filho. O plano final, com os dois sentados lado a lado. A janela da sala aberta pelo filho fora de quadro, deixando a luz entrar, e logo fechada pelo pai, voltando ao sombrio,  Portas abertas, portas fechadas, um reflexo bem claro dos sentimentos envolvidos ali.

Não por acaso, o filme termina com pai e filho lado a lado, uma projeção significativa na parede e um hino no rádio. E com um hino comunista que, no rádio, falha, mas o radialista insiste em cantá-lo até o final.

Avanti Popolo (Brasil, 2013). Direção: Michael Wahrmann. Elenco: Carlos Reichenbach, André Gatti, Marcos Bertoni.

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