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Frances: em busca de uma identidade e de um pouso em Nova York

Frances: em busca de uma identidade e de um pouso em Nova York

A primeira imagem de Francês Ha (Frances Ha, Estados Unidos, 2012) é, em preto-e-branco: duas jovens mulheres fingindo brigar, dançando e correndo na rua. E aí tem a música e, então, parece que estamos na nouvelle vague francesa dos anos 1960. E não é por acaso. O diretor Noah Baumbach (de A Lula e a Baleia, 2005) usa trechos de composições de Georges Delerue (autor de trilhas de filmes de Truffaut, Godard e outros do movimento). Também é da fonte da nouvelle vague que vem o preto-e-branco do filme e os cortes rápidos e meio bruscos, como se capturassem no ar os momentos da vida de Frances.

Mas o filme não tem preocupações literárias ou políticas, apenas retratando a vida de sua personagem principal, em busca de identidade e um pouso. Greta Gerwig reluz como Frances, que, ao 27 anos, ela está meio sem rumo em Nova York. Tem um namorado de que não gosta tanto assim, estuda e dá aulas para crianças em uma companhia de dança contemporânea enquanto espera a oportunidade de integrar o grupo e fazer a carreira deslanchar, e mora com a amiga Sophia (mas logo precisará encontrar outro lugar para morar – algo decente, mas de acordo com o que pode gastar, uma combinação difícil). Mas ela mantém sempre o bom humor ou, no mínimo, uma leveza diante da vida.

Greta é a atriz principal e divide a autoria do roteiro com o diretor – no processo de escrita, os dois se apaixonaram e hoje são namorados. Uma das boas ideias é a divisão do filme em capítulos informais, cujos títulos são os muitos endereços que Frances vai tendo ao longo do filme: não há estrada em Frances Ha, mas, sob certo aspecto, ele não deixa de ser um road movie dentro da cidade. E, como tal, talvez a jornada seja mais importante que o destino (a vida, aliás, pode ser encarada assim, não?).

E é uma jornada tanto de momentos simples e alegres quanto adversos. E há cenas que dizem muito com muito pouco, como a fala sobre ter alguém para entreolhar com cumplicidade em uma festa – que vai ecoar perto do fim do filme -, os momentos em família na Califórnia, a sequência linda e solitária do fim de semana em Paris, e o belo e muito simbólico momento final, em que o motivo do título do filme é singelamente revelado.

Há algumas curiosidades: os pais de Frances são interpretados pelos pais de Greta na vida real, Mickey Sumner (que interpreta Sophie) é filha de Sting, e Chalotte d’Amboise (que interpreta a chefe da companhia de dança) é uma famosa dançarina da Broadway e filha de Jacques d’Amboise, que foi astro do New York City Ballet e um dos irmãos de Sete Noivas para Sete Irmãos (1954).

E a trilha é uma atração à parte: além de Georges Delerue, é muito difícil não sair cantarolando “Modern love”, de David Bowie, no final. A combinação de comédia, ternura, alguma melancolia e ainda essa certa atmosfera de filme francês deram tanto sucesso quanto prestígio – ambos merecidos – a Frances Ha.

Frances Ha. Frances Ha, Estados Unidos, 2012. Direção: Noah Baumbach. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Charlotte d’Amboise.

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