Pequeno imenso ator

Com Oscarito em 'Carnaval no Fogo' (1950)

Com Oscarito em ‘Carnaval no Fogo’ (1950)

Se fosse preciso definir o cinema brasileiro por uma imagem e apenas uma, ela bem que poderia ser a de Grande Otelo. E uma que não fosse de um filme específico, para não privilegiar nenhuma das tantas fases que ele viveu no cinema nacional – desde Noites Cariocas, seu primeiro filme, de 1935. Otelo morreu há exatos 20 anos, quando desembarcava em Paris, onde iria ser homenageado.

“Ator, dançarino, cantor, Grande Otelo não apenas foi um dos maiores talentos do cinema brasileiro, como concentrou em si os momentos mais importantes dessa cinematografia. Brilhou na chanchada, no cinema novo e no cinema dito ‘marginal’, diz o crítico de cinema José Geraldo Couto. Mas foi uma trajetória dura, sofrida e cheia de reviravoltas.

Rio Zona Norte-02

Com Ângela Maria, em “Rio, Zona Norte” (1957)

O apelido faz referência, claro, ao personagem de Shakespeare – mas no começo, ainda nos tempos do teatro e do circo, ele era o “pequeno Otelo”. Sebastião Bernardes de Sousa Prata (Prata porque era o sobrenome da família branca para quem seus pais trabalhavam, na cidade mineira de Uberlândia) estudou em um colégio particular porque uma família branca se encantou com o garoto – um escândalo, no começo. Cantava no hall de um hotel ganhando uns trocados e fazia trabalhos nos circos que passavam pela cidade.

Com oito anos, entrou em cena como a mulher do palhaço. Do circo, passou ao teatro, em São Paulo. No Rio, veio o teatro de revista e o cinema. Seu sucesso nos palcos o levou a contracenar com Josephine Baker, quando ela esteve no Brasil, e com Carmen Miranda. Orson Welles o chamou para seu It’s All True, que começou a filmar no Brasil, mas não conseguiu terminar. “Ele foi amigo de Orson Welles, servindo-lhe de ‘ponte’ com a cultura brasileira”, lembra Couto. E quando surgiu a Atlântida, o primeiro filme foi Moleque Tião (1943), biografia ficcional de Otelo, estrelada por ele mesmo.

"Assalto ao Trem Pagador" (1962)

“Assalto ao Trem Pagador” (1962)

Na nova companhia, o sucesso aumentou ainda mais com as chanchadas e a parceria com Oscarito. Juntos, fizeram filmes antológicos da comédia nacional, como Carnaval no Fogo (1950), Aviso aos Navegantes (1951) e Matar ou Correr (1954). Entre esses, um tom diferente para a comédia dramática Dupla do Barulho (1953), filme de Carlos Manga que reflete sobre a dupla e a posição do negro como subalterno.

No filme, os dois fazem sucesso como uma dupla cômica, mas o personagem de Otelo se revolta ao se ver como escada do parceiro, vivendo momentos dramáticos a partir daí. Na vida real, a competitividade entre os dois impedia que um fosse escada do outro. “Grande Otelo foi um grande ator porque, além do talento dramático e cômico, soube superar os estereótipos que lhe eram destinados e transformar-se num ícone do caráter brasileiro no cinema”, completa o crítico Carlos Alberto Mattos. “Sua versatilidade e capacidade de atender a diversas demandas o fez interpretar personagens os mais variados e se tornar, ele próprio, um grande personagem”.

"Macunaíma" (1969)

“Macunaíma” (1969)

Uma situação em Carnaval no Fogo é exemplar para a vida e carreira de Grande Otelo: sua companheira matou o filho do casal e se matou. Arrasado, no dia seguinte Otelo estava no set para gravar a que talvez seja a mais antológica cena da comédia nacional no cinema: Oscarito de Romeu e ele de Julieta, fazendo a cena do balcão.

Otelo saiu da Atlântida e fez chanchadas em outras companhias, mas teve também bons papéis em filmes de jovens diretores que prenunciavam um novo cinema chegando. Caso de Rio, Zona Norte (1957), de Nélson Pereira dos Santos, e Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias. Em 1969, veio Macunaíma: sua participação nem é tão grande, mas é ele a imagem que ficou eternizada no filme. de Joaquim Pedro de Andrade.

"Jubiabá" (1986)

“Jubiabá” (1986)

Otelo já estaria totalmente identificado com o Brasil, seja no teatro, no cinema ou na TV (toda uma nova geração passou a tê-lo na intimidade como o Seu Eustáquio da Escolinha do Professor Raimundo, nos anos 1990). Não era um combativo, mas sua representatividade (e a representatividade de sua história) era imensa. “Corria o Festival de Gramado, no início dos anos 1990. Era aquele momento de profundo baixo astral do cinema brasileiro: produção paralisada pelo governo Collor, ninguém filmando, insegurança e pessimismo gerais. Aí o Grande Otelo sobe ao palco para receber uma homenagem do festival”, conta o crítico de cinema Celso Sabadin. “Aquele homem pequenininho, no meio do grande palco de Gramado, pega o microfone, faz uma baita discurso otimista, diz que devemos manter a cabeça erguida sempre, e conclama todo mundo a cantar aquela musiquinha ‘Tá, tá, tá, tá na hora…’ (a ‘Marcha do gago’, marchinha de carnaval de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas que foi lançada por Oscarito em Carnaval no Fogo). E mil pessoas cantam e batem palmas sob o comando do sorriso contagiante daquele gigante. Gigante Otelo! Confesso que Grande Otelo, que sempre me fez rir, naquela noite fria em Gramado me fez chorar. De emoção”.

O crítico de cinema baiano João Carlos Sampaio conviveu com Otelo no último filme do ator, o curta Troca de Cabeça, de Sérgio Machado, onde Sampaio foi assistente de direção: “Acabou se tornando o último trabalho deste ator gigante. Mesmo me esforçando, não posso fazer outra coisa senão recorrer ao lugar comum de dizer que sua presença trazia uma aura, uma força que ia além do seu carisma, capaz de nos contaminar a todos. Coisa de astro rei, que nos deixa gravitando em torno”.

CINCO VEZES GRANDE OTELO:

CARNAVAL NO FOGO (1950) – O momento mais célebre da dupla de Otelo com Oscarito: arrasado pela morte trágica da mulher e do filho na noite anterior, ele comparece à filmagem e dá show como Julieta para o Romeu do parceiro.

RIO, ZONA NORTE (1957) – “Uma passagem que eu destacaria de sua luminosa carreira é sua atuação como o sambista Espírito da Luz, em Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, em especial a cena em que seu personagem canta para Angela Maria seu samba (na verdade, de Zé Keti) “Morreu Malvadeza Durão”. O momento em que a Angela Maria começa a cantar e Otelo abre um grande sorriso emocionado é um dos mais sublimes do cinema brasileiro”., diz José Geraldo Couto. Carlos Alberto Mattos destacou a mesma cena: “A cena em que ele subitamente se cala embevecido ao ver Ângela Maria apoderar-se da canção no estúdio da rádio é antológica”.

ASSALTO AO TREM PAGADOR (1962) – Roberto Farias fez a jato a adaptação da história real do referido assalto. Uma das forças do filme é seu elenco, onde Grande Otelo é um dos destaques.

MACUNAÍMA (1969) – O papel principal é de Paulo José e Otelo só interpreta Macunaíma quando bebê e jovem – num grande exercício de surrealismo -, mas é ele a imagem mais lembrada do filme.

JUBIABÁ (1986) – Otelo interpreta o personagem de Jorge Amado em uam co-produção da França com a Embrafilme, fazendo um pai-de-santo com poesia e liderando um elenco dos dois países.

*Versão estendida da matéria publicada hoje no Correio da Paraíba.

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