Eduardo Coutinho

Coutinho: “Quem fala sozinho está no hospício. Eu filme relações”

Ninguém que conheça a obra – e por aí a visão de mundo – de Eduardo Coutinho poderia sequer imaginar a maneira brutal e trágica como sua morte aconteceu ontem. Resolvi resgatar essa entrevista que fiz com ele em fevereiro do ano passado – provavelmente a última que ele concedeu para a Paraíba.

Cabra Marcado para Morrer (1984) iria abrir (como abriu mesmo) a Mostra Noite de Estreia. Não era, claro, uma estreia ao pé-da-letra, mas de certa forma era a maior estreia de todas da programação: a cópia restaurada, estalando de nova, em 35mm, de um dos grandes documentários brasileiros (e que tem a Paraíba como protagonista).

O próprio Coutinho só tinha visto o filme uma vez, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Ele ainda nem havia sido exibido nos cinemas cariocas. É a cópia que vai gerar o DVD oficial do filme, para o qual novas entrevistas foram feitas pelo cineasta para os extras e uma faixa de comentários em áudio foi gravada há poucos dias por ele, o jornalista Carlos Alberto Mattos (do blog de quem roubei a foto abaixo) e Eduardo Escorel.

coutinho

Conversei com Coutinho por telefone para o Correio da Paraíba. Falamos da cópia nova, das discussões entre televisão e cinema, do modo dele de fazer documentários, etc. Já disseram que ele não gostava de dar entrevistas, mas nosso papo foi muito bom, muito agradável. Conversamos bastante e poderíamos ter conversado mais, não fosse o deadline.

Segue aí nossa conversa, começando logo após minha abertura factual da mostra, que cortei:

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“Foi estranho, gosto de assistir ao filme escondido, no meio do público”, contou ele, que não assistiu às exibições em São Paulo. “A restauração foi feita em São Paulo e não me envolvi porque isso exige uma competência técnica que não tenho. ‘Corrigir o magenta’, eu não sei o que é magenta. Pedi a Lauro Escorel, que tem experiência com restaurações, que supervisionasse”. O trabalho de restauração foi meticuloso, quadro a quadro. “Salvou o filme”, celebra Coutinho.

Cabra Marcado para Morrer foi o primeiro filme de Coutinho, depois de seu período de nove anos no Globo Repórter. “Dentre as muitas regras, havia uma de que o repórter não poderia aparecer”, lembrou. “Para fazer o filme, disse: ‘Não importa se aparece o gravador, se eu apareço. Se tiver que aparecer, aparece’”.

É o resumo de seu estilo de cinema muito pessoal, em um gênero que tem lá seus conflitos entre “arte” e “comunicação”. Não faltam documentaristas que, por exemplo, dizem que não usam narração porque “cinema não é televisão”. Cabra Marcado para Morrer não está nem aí para isso.

“Eu apareço nos meus filmes. Alguns filmes são feitos por fantasmas. Não tenho nenhum problema com isso, há ótimos filmes feitos por fantasmas, só não é o meu estilo”, explicou. “Quem fala sozinho está no hospício. Eu filmo relações”.

Cabra Marcado não começou exatamente como um documentário, embora contasse uma história real. Coutinho, com Vladimir Carvalho como assistente de direção, estava na Paraíba em 1964, para filmar de forma ficcional o assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas. Mas o menos ficcional possível, tanto que convidou Elizabeth Teixeira, a viúva de João Pedro, para interpretar seu próprio papel, dois anos após o assassinato.

O golpe de 1964 interrompeu as filmagens e a equipe teve que literalmente fugir (levando junto Dona Elizabeth). 17 anos depois, Coutinho começou sua busca pelos participantes daquela aventura – agora, como um documentário onde o tempo é o grande tema.

Quando Coutinho soube que Elizabeth ainda estava viva, não sabia em que cidade ela estava. O filme é a investigação desse paradeiro. “Tudo o que aconteceu no Cabra foi de improviso”, disse. “O cinema que me interessa é imperfeito e impuro como a vida”.

Eduardo Coutinho esteve recentemente na Paraíba realizando novas entrevistas com Elizabeth, 87 anos, e outros personagens do filme para extras do DVD que será lançado com a cópia restaurada de Cabra Marcado para Morrer. Ele ainda liga todo Natal para a companheira de sua maior aventura.

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