O amor, a vida e arte

Domingos Oliveira: "O que é o amor? É o estado natural do homem"

Domingos Oliveira: “O que é o amor? É o estado natural do homem”

Homem de teatro e de cinema, principalmente, Domingos Oliveira está completando 50 anos de carreira em 2014. Diz respeito ao seu começo de carreira no teatro – o primeiro longa veio em 1967, o clássico Todas as Mulheres do Mundo, com Paulo José e Leila Diniz. O Canal Brasil vem há algumas semanas exibindo filmes do diretor às terças, às 23h15. 

Conversei com Domingos Oliveira após a coletiva no Festival de Gramado em que apresentou um dos dois filmes que lançou no ano passado: O Primeiro Dia de um Ano Qualquer – matéria publicada sábado, no Correio da Paraíba. Falou de algo específico da obra dele, essa contaminação entre teatro e cinema, mas falou principalmente dos assuntos que ama e sobre os quais giram seus filmes: a vida, a arte e o amor.

Sobre cinema, o diretor publicou um texto na imprensa, no final de 2013, reclamando da dificuldade de lançar seus filmes – Primeiro Dia sairia em apenas três salas, junto com outro filme seu, Paixão e Acaso.

Leila Diniz  em "Todas as Mulheres do Mundo"

Leila Diniz em “Todas as Mulheres do Mundo” (1967)

“Hoje está dez vezes mais difícil. Porque as pessoas que não são de cinema invadiram o cinema”, diz o diretor. “Nossa legislação é ruim, é deletéria mesmo. Basta dizer que ela é baseada em incentivos fiscais. Por exemplo, a Lei Rouanet. A primeira coisa que uma lei desse tipo faz é desligar dois amantes inseparáveis: o público e o cineasta. Não importa mais se o filme faz sucesso, importa se eu ganho patrocínio com ele. Não importa mais o que o público pensa do meu filme. Isso é horrível. A última notícia que se ouve é de um tipo de legislação que apoia tanto o mercado que vai dar os financiamentos na medida e na proporção do que você faturou no ano anterior. Ora, isso é dar dinheiro pros ricos. Em termos de colégio, isso é uma bela definição de capitalismo selvagem (risos).”

Mesmo com essa dificuldade, ele não desiste: já tem projetos engatilhados para este ano, inclusive um filme sobre a copa. “Eu e minha geração somos revoltados contra a condição humana. Somos revoltados contra a morte”, diz, aos 77 anos, sobre a simbiose entre sua vida e sua arte. “Acho que a morte é uma coisa que não deveria existir, que é incompreensível, que é absurda. Que torna toda a aventura humana uma coisa ridícula. E minha posição contra a morte é que eu sou contra! Daí que minha função na vida é lutar contra ela o tempo inteiro”.

Para ele, a arte é um dos elementos que o ser humano usa para essa luta. “Se todo mundo buscar modos de se distrair, não fica pensando besteira – porque pensar na morte é besteira, você vai morrer mesmo. Uns pensam em dinheiro, outros pensam até no amor”, filosofa. “São ‘alienativos’, digamos assim, são forças – umas mais construtivas, outras menos construtivas, outras até destrutivas – que podem afastar tua cabeça da ideia inexorável e inaceitável de que você vai morrer. Porque a natureza botou no homem um desejo imenso de fazer uma coisa que você não vai poder fazer – que é permanecer vivo”.

Fernanda Rocha, Maria Ribeiro e Domingos em "Separações" (2002)

Fernanda Rocha, Maria Ribeiro e Domingos em “Separações” (2002)

É aí que entra a arte. “Então você se aliena através de várias coisas: da política… Cada um inventa um jogo. Há jogos incríveis: mulheres pensando na sua beleza pessoal, homens pensando na sua ambição. Besteira. Tudo invenção. Invenção para escapar da preocupação essencial”, continua. “A melhor de todas as opções, digamos assim, a que constrói humanidades, constrói civilizações, é a arte. Eu sou inteiramente regido pela arte. Penso na arte o dia inteiro! Assim, eu não penso em besteira”.

Domingos Oliveira está escrevendo um livro de memórias – já terminou a primeira versão. O homem que viveu com Leila Diniz e fez para ela Todas as Mulheres do Mundo depois de se separarem e que mantém com a atriz e roteirista Priscilla Rozembaum há anos uma parceria de amor e arte tem muito a dizer sobre o amor.

“Sobre o amor, eu fiz muitos filmes, posso dizer que estudei isso a minha vida inteira”, disse. “A paixão acho que é estado máximo do homem para atingir a espiritualidade. A paixão é o Himalaia de Deus. Um lugar onde tudo está certo e se não está certo não poderia ser de outro modo”.

Teatro e cinema se contaminam na carreira de Domingos Oliveira, mas ele acha uma relação natural. “Todo o cinema bom é contaminado pelo teatro. O cinema jamais perdoará o teatro por um autor poder dizer: ‘Gente, estamos em Marte’ – e estamos. Ao passo que o cinema tem um jogo com o tempo, uma magia com o tempo que o teatro não tem”, diz.

Arte e amor são temas que também se contaminam há muito tempo – e, claro, na obra de Domingos também. “Acho que do amor não dá pra entender nada”, resume. “Ele é absolutamente incompreensível, ele é gratuito. É uma coisa mágica”.

Priscilla Rozembaum, Domingos e eu, em Gramado

Priscilla Rozembaum, Domingos e eu, em Gramado

Ele cita Schopenhauer – o “mais mal-humorado de todos os filósofos”, segundo ele – para uma explicação mais próxima sobre o amor. “Ele disse: ‘O amor é uma traição que a espécie faz com o indivíduo’. Durante algum tempo a pessoa ama e se torna um servo da espécie. A função é ter filhos para que a espécie possa continuar. E que a escolha da paixão é uma escolha complicadíssima, interna, muito mais racional de descobrir qual o parceiro que vai criar o melhor espécime futuro. Mas isso é uma bobagem. Eu acredito que o amor não tem nenhuma explicação”.

Para Domingos, a arte explica o mundo melhor que o amor. “Mas ela se alimenta do amor. E o que é o amor? O amor é o estado natural do homem”, define. “Só não ama quem levou muita porrada. O estado natural dos bebês é amar”. Ele complementa lembrando uma cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). “Eu me lembro do filme do Glauber Rocha em que vão procurar o Corisco e o cabra diz pra ele: ‘Corisco, vai embora daqui que vêm os soldados te matar. Você vai morrer’. E o Corisco se vira pra ele com uma cara terrível, nunca esqueci isso, e diz: ‘Eu já estou moooooorto!’”, diz, empostando a voz, quase interpretando o Corisco de Othon Bastos, para depois fazer a relação: “Tem gente sofreu tanto que já morreu em vida”.

Ele complementa com a relação do amor com a arte. “A posição natural do homem é amar. E a posição natural do homem é criar. Acho que essa espécie humana – tão estranha, de destino misterioso – tem duas vocações. Tem duas coisas que ela parece ter nascido para fazer: uma é trepar e a outra é criar. Entre a reprodução da espécie e a criação está a verdadeira vocação do homem”.

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