Estrelas-04 e meia juntas

A banalidade do mal

Lupíta Nyong'o, Michael Fassbender e Chiwetel Ejiofor: ser menos do que é

Lupíta Nyong’o, Michael Fassbender e Chiwetel Ejiofor: ser menos do que é

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, Estados Unidos/ Reino Unido, 2013) parte de uma história individual – a de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), violinista negro na Saratoga de 1841 – para abordar outras mais gerais – os negros livres que eram sequestrados e vendidos como escravos naqueles anos ainda de escravidão legal nos Estados Unidos e, ampliando a lente, o cotidiano da escravidão em si. O filme dirigido por Steve McQueen se esmera em narrar esse mundo e é assustador ao expor a banalidade do mal.

Muito se falou e escreveu da violência física no filme, inclusive com o incrível exagero de enquadrá-las como torture porn. Como se 12 Anos de Escravidão fosse da linha de O Albergue e similares, onde o uso da violência é um componente da diversão. Para começar, a violência física (e há bastante) se alinha à postura que o filme pretende exibir de maneira direta. Por outro lado, não há mais do que em – digamos – A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, e em diversos momentos essa violência é dosada, para chocar na medida, mas não demais.

Mas não é mais importante que a rotina de humilhações pelas quais Solomon tem que passar depois que é enganado, dopado e capturado – rotina sobre a qual, tendo nascido livre e vivendo no norte dos Estados Unidos, possivelmente ele era alheio. A nudez coletiva, a submissão obrigatória no tratamento, ser negociado como um animal, a terrível sensação de que não há como ou para onde fugir e a necessidade (para a sobrevivência) de fingir ser menos do que se é.

Esse último aspecto é ensinado a Solomon por Clemens (Chris Chalk), um companheiro de cativeiro logo no começo. E ainda assim, ele aprende a duras penas. Para seu primeiro dono, Ford (Benedict Cumberbatch), ele se esforça em mostrar dons. Ganha a confiança e o respeito do “amo”, mas nem isso o livra de sofrimento e riscos.

Sempre empurrado para ser menos do que é, negando até que saiba ler e escrever e muito menos reivindicando sua situação legal de homem livre, Solomon vai deixando de se comportar como tal. E a narração de McQueen brilhantemente vai nos “acostumando” à situação, assim como acontece com o protagonista. Lá pelo meio do filme, é fácil assisti-lo como um drama sobre escravidão onde o escravo que é o personagem principal sempre foi escravo, e não um homem que sempre viveu livre e está nessa condição.

Nesse sentido, a cena ainda na parte inicial em que o escravo cético que dá dicas a Solomon é salvo por seu dono vai ecoar em um momento chave do final – e também será ela própria melhor compreendida quando estivermos lá. É um dos grandes momentos da ótima narração de McQueen.

Há diversos outros grandes momentos. Como a sequência em que Solomon não aceita a agressão gratuita do feitor Tibeats (Paul Dano) e recebe do capataz a instrução: “Fique aqui. Não fuja ou não poderei defendê-lo”. O tempo de espera em que ele fica sozinho aguardando o dono para a resolução do assunto é esticado ao máximo multiplicando a angústia do personagem que não sabe qual será seu destino.

A essa cena, segue-se a do enforcamento, onde, de novo, o diretor coloca a ação em suspenso por um longo tempo em que o público vê Chiwetel Ejiofor com a corda no pescoço e na ponta dos pés, sem saber se virá ou não alguma ajuda. Enquanto isso, ao fundo, outros escravos lentamente retomam seus afazeres normais enquanto a cena brutal acontece.

Em outro momento, já sob o jugo de Edwin Epps (Michael Fassbender), ele é acusado no meio da noite de tramar uma fuga. Fassbender passa o braço pelos ombros de Ejiofor segurando uma lanterna. E quando sai, o que resta do escravo na tela é sua silhueta contornada pela luz da lanterna por trás, sublinhando sua fragilidade extrema nesse momento.

Lupita Nyong’o, mexicana de nascimento e filha de pais quenianos, ganhou o Oscar de coadjuvante pelo papel de Patsey: a escrava que é a obsessão do dono Epps. Mais uma vez o ensinamento de ser menos do que é: se destacar, aí, leva à ira da mulher de Epps (Sarah Paulson) e, mais além, ao ciúme do próprio Epps. Enquanto Ford está na trama para ponderar a respeito do que é o bem “sob certas circunstâncias”, como é debatido pelos próprios escravos, Epps é, sem dúvida, um exemplo do pior que poderia ser (sem o espírito cartunesco do Django Livre de Tarantino). Ele é capaz de levar os escravos para dentro da casa e fazê-los dançar um minueto só por uma bizarra e extremamente humilhante diversão.

Lupita é mais uma de um grande elenco, onde ainda vale destacar a pequena participação de Paul Giamatti, como um vendedor de escravos que parece estar vendendo cavalos. E o papel de Giamatti é mais um dado de que 12 Anos de Escravidão se esforça para traçar um amplo painel – coisa rara hoje em dia, faz isso sem ser prolixo. Seria fácil levar esse filme às três horas de duração ou mais. Mas McQueen usa o poder da síntese para não ir a mais dos que as 2h14 sem, aparentemente, deixar de abordar nada do que gostaria e tendo espaço para jogar bem com o tempo de cada cena. É um muito digno vencedor do Oscar de melhor filme, mas sua maior vitória é realmente mostrar como é fácil ser mau quando a sociedade diz que está dentro da lei.

12 Anos de Escravidão. 12 Years a Slave. Estados Unidos/ Reino Unido, 2013. Direção: Steve McQueen. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Paul Dano, Paul Giamatti, Brad Pitt, Alfree Woodard, Quvenzhané Wallis.

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