Estrelas-04 e meia juntas

Suspensa no vácuo

Sandra Bullock: desconforto físico e uma grande atuação

Sandra Bullock: desconforto físico e uma grande atuação

O prodígio técnico de Gravidade (Gravity, Estados Unidos/ Reino Unido, 2013) é o que se nota à primeira vista: o filme consegue, como nunca antes, mostrar o espaço abolindo as noções de “em cima” e “embaixo”. Isso, em um complexo plano sequência de sete minutos, seguido por outro de cinco, que combinam atores pendurados em cabos e cenário em animação. Mas o impacto visual é só o apoio para um filme que, na verdade, combina suspense com uma metáfora mais ou menos óbvia (mas não por isso menos eficiente) da solidão e de parecer estar em “suspenso no ar” (ou melhor, no vácuo) quanto à própria vida.

A história é centrada na astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), cientista em sua primeira missão espacial, instalando um dispositivo no telescópio Hubble. Mas os detritos de satélites que se chocaram longe dali e que agora estão viajando em alta velocidade chegam ao local onde a equipe dela está e logo só restam Ryan e o veterano Matt Kowalsky (George Clooney).

A dupla à deriva no espaço precisa encontrar uma maneira de voltar para a Terra – e viajar pelo espaço se mostra tão difícil, desconfortável, perigoso e angustiante que atinge em cheio qualquer ilusão de criança quanto ao assunto.

Em boa parte do filme ficamos só com Sandra Bullock, em um monólogo que certamente impressiona. Com todos os efeitos à sua volta, Sandra sustenta o filme ela própria, com um prodígio inclusive físico bastante considerável. Na maior parte do filme, ela esta sustentada por cabos ou erguida como uma marionete para criar a ilusão da gravidade zero. Em com todo esse desconforto, ela entrega uma grande atuação, ajudando decisivamente a que Gravidade seja, na verdade, sobre sua personagem e não sobre os efeitos visuais.

Curtinho, o filme de Alfonso Cuarón não tem “barrigas”: mantém a tensão constante do começo ao fim e nem faz digressões em flashbacks, prólogos ou epílogos. Ele é concentrado com firmeza apenas na história que quer contar, que é a da cientista redescobrindo a própria vida.

Assim como o conceito geral, há momentos metafóricos bem evidentes: Sandra dentro da nave, flutuando em posição fetal após tirar a roupa de astronauta (para quem viu a abertura de Barbarella, vai ser impossível não lembrar do filme com Jane Fonda). A simbologia da água com o útero também é clara, tanto quanto a de “andar com as próprias pernas”.

Na reta final, Gravidade cede à tentação do melodrama e sobe desnecessariamente o tom da música de Steven Price (vencedora do Oscar, assim como outras seis categorias em o filme venceu: direção, fotografia, montagem, mixagem de som, edição de som e feitos visuais). Mas não chega a abalar a grandeza do filme, certamente a grande viagem em que o cinemão hollywoodiano leva o espectador em muito tempo.

Gravidade. Gravity. Estados Unidos/ Reino Unido, 2013. Direção: Alfonso Cuarón. Elenco: Sandra Bullock, George Clooney. Voz: Ed Harris.

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