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Deboche “de arte”

Stacy Martin, em "Ninfomaniaca": mostrando pouco

Stacy Martin, em “Ninfomaniaca”: mostrando pouco

Quando Lars von Trier anunciou no Festival de Cannes que seu filme seguinte seria um pornô, o ar de deboche estava evidente (a famosa consideração sobre Hitler só reforçava isso). Ninfomaníaca – Volume 1 (Nymphomaniac – Volume 1, Dinamarca/ Alemanha/ França/ Bélgica/ Reino Unido, 2013) também reforça isso.

Ancorado no relato de uma convalescente Joe (Charlotte Gainsbourg) sobre suas aventuras sexuais, o filme (sem o volume 2, que estreou meses mais tarde) é pouco mais do que uma coleção de contos eróticos protagonizados pela mesma personagem, só que mais jovem (vivida, aí, pela estreante inglesa, ex-modelo, Stacy Martin). Joe conta suas histórias a um homem contido e bom ouvinte, Seligman (Stellan Skarsgard), após ser resgatada em uma rua escura depois de um espancamento.

Seligman (curiosidade: em dinamarquês, “selig” é “insolúvel”, segundo o Google Tradutor – não imagino se há algum significado nisso para o filme) não só ouve como faz comentários pretensamente profundos, enquanto Joe conta como aceitou o desafio de uma amiga de uma competição para transar com homens em um trem e de sua relação conturbada com o mecânico que tira sua virgindade e que, depois, ela reencontra como homem de negócios. Ou a invasão de uma mulher casada (Uma Thurman) ao seu apartamento, quando Joe está com o marido dela.

Mais explicito do que o sexo – no corte que chegou aos cinemas brasileiros, que ainda dá uma maneirada no sexo explícito – é a tentativa de construir uma atmosfera pesada quase o tempo todo – como que para dar um ar de seriedade ao conteúdo erótico. O dialogo vai discorrendo sobre bondade ou maldade e o vazio de emoções que Joe experimenta desde sempre. Porém, Von Trier parece não se decidir se está ou não levando a sério seu próprio filme, com uma tentativa de fazer humor em algumas cenas que só pode ser proposital.

Caso de Seligman imaginando o que seria uma aula de educação sexual de Joe. Em outras, fica a dúvida: serão sérias aquelas intermináveis analogias de Seligman sobre a pesca ou música clássica? Ou os intertextos a la Ilha das Flores (1987) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)? Ou a cena de constrangimento de Uma Thurman?

A decisão de dividir o filme em dois pode fazer com que o segundo melhore o primeiro, se der um sentido a essa por enquanto mera coleção de contos de sexo mais ou menos explicito (e explícito mesmo, no corte que o diretor quer). Se a perspectiva, no entanto, for ainda esta – a de um deboche vestido de “filme de arte” – será, para começar, um filme longo demais para mostrar muito pouco. E não estou falando de nudez.

E, neste caso, ainda bem, pelo menos, que resolveram lançar como dois filmes – e não um só de quatro ou cinco horas.

Ninfomaníaca – Volume 1. Nymphomaniac – Volume 1. Dinamarca/ Alemanha/ França/ Bélgica/ Reino Unido, 2013. Direção: Lars von Trier. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skasgard, Shia LaBeouf, Christian Slater, Connie Nielsen, Uma Thurman.

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