A comédia-romântica é quase tão antiga como o próprio cinema. O que é Luzes da Cidade (1931), de Chaplin, se não uma comédia-romântica? Mas Harry & Sally, Feitos um para o Outro (1989), que está completando 25 anos, redefiniu o subgênero para os filmes que vieram depois.

Mas a comédia-romântica também acabou virando alvo de bastante preconceito. É um cinema pueril? É um cinema bobo? É um cinema “de mulherzinha”?

É verdade que, como em todo gênero,  muitos filmes se escoram em uma fórmula óbvia, uma receita repetida mil vezes, exageram na água-com-açúcar, optam por um humor rasteiro e constrangedor. Mas também há aqueles que conseguem combinar seus dois elementos básicos muito bem, que contam sua história com estilo e talento narrativo.

São romances, são comédias e são ótimos.

10 - "Simplesmente Amor"

O primeiro-ministro e a funcionária: Hugh Grant e Martine McCutcheon, em “Simplesmente Amor”

10 – SIMPLESMENTE AMOR (2003), de Richard Curtis

A la Robert Altman, o roteirista Richard Curtis assumiu a direção aqui também para esse mosaico de histórias de amor natalinas, com um grande elenco (Hugh Grant, Emma Thompson, Alan Rickman, Colin Firth, Keira Knightley, Bill Nighy, Laura Linney, Liam Neeson, Rowan Atkinson e até tem um bom lugarzinho pro Rodrigo Santoro). Como em todo mosaico, há momentos melhores que outros, mas histórias melhores que outras – mas o que é bom, é ótimo: a corrida do garotinho pelo aeroporto só pra dizer “eu te amo”, o casal de stand-ins de filme pornô (que são super tímidos), o drama do casal de meia idade em que o marido está no alvo da funcionária sedutora, a relação do escritor com a empregada portuguesa (um sem falar a língua do outro), o primeiro-ministro apaixonado pela funcionária, o impagável Bill Nighy de roqueiro decadente, e, claro, o momento favorito do público: a declaração de amor com cartazes.

9 - "O Casamento do Meu Melhor Amigo"

“I say a little prayer” no restaurante: Rupert Everett e Julia Roberts, em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”

9 – O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (1997), de P.J. Hogan

P.J. Hogan já tinha feito na Austrália o ótimo O Casamento de Muriel (1994) e voltou ao tema do casório em seu primeiro filme americano. Começa com um número musical totalmente descolado do filme, é centrado na “vilã” vivida por Julia Roberts (que resolve que ama seu melhor amigo – Dermot Mulroney – no segundo em que ele diz estar de casamento marcado com outra – Cameron Diaz – e faz de tudo para conquistá-lo) e tem o grande personagem de apoio de Rupert Everett. Além do número do começo, Hogan reserva momentos musicais ótimos, como o karaokê desafinado de Cameron Diaz, “I say a little prayer” no restaurante, “The way you look tonight” no barco.

8 - "Feito Cães e Gatos"

Meio Cyrano de Bergerac: Ben Chaplin, Uma Thurman e Janeane Garolafo, em “Feito Cães e Gatos”

8 – FEITO CÃES E GATOS (1996), de Michael Lehmann

Uma história meio Cyrano de Bergerac é a base da trama em que Janeane Garofalo é uma radialista por quem Ben Chaplin se interessa. Mas, com vergonha de ser baixinha e gordinha, ela convence a vizinha, uma modelo vivida por Uma Thurman, a se passar por ela. O elenco é todo bom, a trama é engraçada e muito bem narrada, desenvolvendo bem a confusão de indentidades, mas o melhor é que a ótima Janeane Garofalo consegue ser mais interessante que Uma Thurman!

7 - "Enquanto Você Dormia"

Confundida com a noiva de um ricaço em coma: Peter Gallagher e Sandra Bullock, em “Enquanto Você Dormia”

7 – ENQUANTO VOCÊ DORMIA (1995), de Jon Turteltaub

Primeiro filme de Sandra Bullock como estrela, após Velocidade Máxima (1994), este realmente a estabeleceu como “namoradinha da América”. É um filme muito feliz, que combina bem o carisma da atriz com uma história rocambolesca em que ela é uma bilheteira da estação de trem confundida com a noiva de um ricaço em coma – um bonitão que ela sempre desejou em segredo. O problema mesmo é que a família se apaixona por ela e o nó vai ficando mais difícil de desatar.

6 - "Um Dia Especial"

A modernidade da vida adulta: George Clooney e Michelle Pfeiffer, em “Um Dia Especial”

6 – UM DIA ESPECIAL (1996), de Michael Hoffman

Não faltam comédias-românticas em que o casal tem uma antipatia à primeira vista e depois vai descobrindo os encantos um dos outro. Poucos recentes são tão bons como este, em que George Clooney é um jornalista e Michelle Pfeiffer é uma arquiteta, ambos divorciados, e que, por acidente, precisam ficar com seus filhos durante um dia inteiro e especialmente atribulado. É bom como o filme trata de questões da modernidade da vida adulta: a vida após o divórcio, a pressa do mundo atual, a pressão do trabalho e a vida com os filhos no meio disso tudo.

5 - "500 Dias em Ela"

Também sobre o desamor: Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, em “500 Dias em Ela”

5 – 500 DIAS COM ELA (2009), de Marc Webb

Entre as muitas coisas interessantes do filme estão as idas e vindas no tempo, que alternam os bons e os maus momentos de um relacionamento, as sacadas narrativas (o número musical, a imagem de transformando em croqui de arquiteto), a cena que divide a tela em “expectativa” e “realidade”, a ótima trilha sonora, tudo passando pelo muito carismático casal de atores. Mas o grande lance, pra mim, é que é também um filme sobre o desamor. A tradução disso pelo filme é muito inteligente: é difícil alguém que não se identifique.

4 - "Abaixo o Amor"

Como nos anos 1960 (segundo Hollywood): Renée Zellweger e Ewan McGregor, em “Abaixo o Amor”

4 – ABAIXO O AMOR (2003), de Peyton Reed

Este é um recorte especial. É uma história que se passa nos anos 1960, em que uma escritora chega a Nova York para divulgar seu livro que está prestes a bombar e que prega que as mulheres devem ter a mesma atitude dos homens com relação ao sexo: não se apaixonar. Um jornalista galã resolve provar que ela é uma mulher como todas as outras e que pode fazê-la se apaixonar. O grande lance é que o filme é feito como se fosse uma produção de 1962: a reconstituição de época é com o design de sets, figurinos e penteados da Hollywood da época, a trilha sonora também segue aquele estilo, passando pela interpretação dos atores e efeitos como a projeção de fundo nas cenas ao volante e a tela dividida nas cenas de diálogos ao telefone. Tudo lembrando as comédias de Doris Day e Rock Hudson, com uma trama parecida com Médica, Bonita e Solteira (1964), Ewan McGregor evocando Tony Curtis, referências a Kim Novak…

3 - "Sintonia de Amor"

Entre NY e Seattle: Meg Ryan e Tom Hanks, em “Sintonia de Amor”

3 – SINTONIA DE AMOR (1993), de Nora Ephron

O filho legítimo de Harry & Sally nessa lista. Roteirista do filme de 1989, Nora Ephron assumiu também a direção aqui com uma história de amor em que os protagonistas praticamente não se encontram: Tom Hanks é o viúvo com um filho, em Seattle, que ainda não voltou para a pista e conta sua história em um programa de rádio; Meg Ryan é a jornalista de Nova York, noiva de um cara meio sem graça, que ouve o programa e é tomada de uma curiosidade irresistível sobre o sujeito. O filme vai contando suas histórias separadas e os pequenos pontos de interseção entre os dois personagens. E há uma relação umbilical com o dramão Tarde Demais para Esquecer (1957).

2 - "Quatro Casamentos e um Funeral"

Charmoso, inteligente, engraçado: Andie MacDowell e Hugh Grant, em “Quatro Casamentos e um Funeral”

2 – QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994), de Mike Newell

Quatro Casamentos e um Funeral talvez seja a comédia romântica mais importante desde Harry & Sally porque deu início a uma onda de filmes ingleses do subgênero. E ainda é o melhor deles: o elenco mais coeso (além dos protagonistas, uma turma de coadjuvantes na medida certa, como Kristin Scott Thomas, Simon Callow, John Hannah, uma ótima aparição de Rowan Atkinson), a narrativa mais interessante (divida nos “capítulos” do título) e redonda, surpresas. Quase tudo o que Hugh Grant fez de bom depois descende de seu personagem nesse filme e Andie MacDowell é musa com conteúdo. É charmoso, é inteligente, é engraçado, não exagera nas tintas. Dois pontos (bem) altos: Andie contando todos os homens que teve e o diálogo em linguagem de sinais entre Hugh Grant e seu irmão surdo durante um dos casamentos.

1 - "Muito Barulho por Nada"

Um convite ao ardor da paixão: Keanu Reeves, Denzel Washington, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Kate Beckinsale e Robert Sean Leonard, em “Muito Barulho por Nada”

1 – MUITO BARULHO POR NADA (1993), de Kenneth Branagh

Ok, é Shakespeare, mas é um romance contado como comédia: a comitiva do Príncipe Don Pedro (Denzel Washington) chega à cidade de Messina e logo começa a ciranda amorosa dos cavalheiros com as moças locais. Há o jovem e inocente casal (Kate Beckinsale e Robert Sean Leonard) vítima da inveja do irmão do príncipe (Keanu Reeves), mas o melhor está reservado para o duelo verbal entre Benedick (Kenneth Branagh) e Beatrice (Emma Thompson, casada com Branagh na época). A metralhadora de provocações e insultos entre os dois é um primor, assim como a trama dos amigos para fazer com que eles se apaixonem um pelo outro. O filme ainda capta lindamente a paisagem da Toscana, quase um convite ao ardor da paixão.

Menções honrosas: Uma Linda Mulher (1990); Esqueça Paris (1995); Um Lugar Chamado Notting Hill (1997); Mensagem para Você (1998); Como Se Fosse a Primeira Vez (2004); Separações (2004); Letra & Música (2007); O Primeiro Amor (2010)…

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