Estrelas-04 juntas-site

Para não ser uma peça de museu

Capitão América (Evans) e a Vipuva Negra (Scarlett): o herói tenta compreender o mundo atual sem perder seus valores

Capitão América (Evans) e a Viúva Negra (Scarlett): o herói tenta compreender o mundo atual sem perder seus valores

O primeiro Capitão América da Marvel Studios, em 2011, usou muito bem a ambientação anos 1940 da história da origem do personagem. Com o diretor Joe Johnston, evocou o sabor de aventuras antigas com um ótimo resultado final. O desfecho, porém, já era no século XXI, em ligação com Os Vingadores – The Avengers (2012). O segundo, Capitão América 2 – O Soldado Invernal (Captain America – The Winter Soldier, EUA, 2014), conseguiu a proeza de adaptar muito bem o herói para uma aventura na atualidade.

O filme começa situando Steve Rogers (Chris Evans), em Washington, e não por acaso, já que é a sede do governo americano. É uma bonita e significativa sequência em que ele dá uma corrida em torno do espelho d’água que liga o Monumento a Washington ao Memorial de Lincoln e faz amizade com o ex-aviador Sam Wilson (Anthony Mackie). Rogers, é bom lembrar, não tem identidade secreta: Wilson reconhece logo que se trata do Capitão América (e é uma ótima representação do herói Falcão, parceiro de longa data do Capitão nas HQs e um dos poucos heróis negros de destaque nos quadrinhos).

A rotina é logo interrompida por uma beldade em um carrão: a Viúva Negra (Scarlett Johansson), que o busca para mais uma missão a serviço da organização SHIELD, bastante secreta até para quem trabalha para ela. Até aí, o filme também já tratou de situar Rogers como um homem ainda precisando se adaptar a um tempo que não é o seu. Por enquanto, no que diz respeito a referências culturais (ele precisa anotar sobre Guerra nas Estrelas e Marvin Gaye em um caderninho) e maneira de lidar com as mulheres (tema de conversa com a colega agente).

Mais tarde, essa inadequação vai se fazer mais presente, e de maneira mais geral, na contraposição entre um herói “antiquado” que vê (ou se esforça para continuar vendo) as coisas em termos claros de certo e errado (como na II Guerra, onde o “errado”, pelo menos, era fácil de reconhecer) e um mundo que insiste em dizer a ele que já não é bem assim, com certo e errado se embaralhando.

Isso é temperado pelo surgimento do Soldado Invernal (Sebastian Stan), um assassino supereficiente que está disposto a macular para valer a agência. Muita coisa nessa história vai remeter ao passado do Capitão, passado emblematizado numa bonita sequência de uma exposição sobre sua história no museu (sequência que também serve bem para contextualizar a história toda para quem está chegando agora).

O filme dos irmãos Anthony e Joe Russo mostra exatamente o herói tentando não se tornar uma peça de museu, mas ainda mantendo seus valores e ideais (caminho pelo qual O Homem de Aço deveria ter seguido e não o fez). O Capitão América é um sujeito simples e direto em um mundo complexo e ambíguo, mas em nenhum momento pensa em se deixar dobrar.

Os irmãos diretores, incrível, não comandavam um filme desde 2006 – a comédia ruim Dois É Bom, Três É Demais. Desde então, se dedicaram à TV, principalmente à série Community, para a qual dirigiram 21 episódios. Em Capitão América 2, eles abandonaram o clima de seriado dos anos 1940, que Joe Johnston imprimiu em O Primeiro Vingador, e optaram por aproximar o filme dos thrillers políticos dos anos 1970, o que funcionou muito bem.

Talvez não seja por acaso a presença de Robert Redford, portanto, que dá peso extra a um filme de super-heróis e que ajuda na construção da nova atmosfera. Embora, claro, com o molho dos filmes de ação bem século XXI. O filme vai dosando esses momentos com o Capitão superando seguidos desafios até a reta final. Aí, há muito movimento e barulho, como esperado, mas, felizmente, nada que ofusque a história.

E a ação se dirige a um ponto em que, em boa medida, não se sabe mais quem é aliado ou inimigo, e rumos importantes do universo Marvel nos cinemas são sensivelmente alterados (atenção para a cena pós-créditos, primeira menção a um certo tipo importante de personagem que ainda não havia aparecido nos filmes do Marvel Studios). Em um ponto onde os filmes de super-heróis poderiam estar saturados, Capitão América 2 – O Soldado Invernal mostra que dá para misturar o “à moda antiga” e a “modernidade”.

Capitão América 2 – O Soldado InvernalCapitain America – The Winter Soldier. Estados Unidos, 2014. Direção: Anthony Russo, Joe Russo. Elenco: Chris Evans, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Robert Redford, Sebastian Stan, Anthonie Mackie, Cobie Smulders, Emily VanCamp, Hayley Atwell, Toby Jones, Stan Lee. Voz: Gary Sinise.

Anúncios