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O tapete que será puxado

Barbara Stanwyck e Fred MacMurray: ela puxa as cordinhas

Barbara Stanwyck e Fred MacMurray: ela puxa as cordinhas

Walter Neff acha que é mais esperto que a maioria dos ursos. É um bom vendedor de seguros, tem o respeito do esperto chefe, está numa boa. Mas quando Phyllis Dietrichson aparece de toalha no alto da escada da casa em que ele foi ver um cliente e não consegue tirar os olhos dela, ele deveria reconhecer que também tem suas fraquezas. É a trama típica dos filmes noir: um sabichão se mete onde não deve ou dá um baita azar e vida puxa-lhe o tapete. A mulher fatal (o próprio sexo em pessoa andando em ondas em frente ao nosso protagonista), os diálogos cínicos e cortantes e a atmosfera sombria (uma representação da alma dos personagens e, talvez, do mundo inteiro) – está tudo em Pacto de Sangue (Double Indemnity, Estados Unidos, 1944), mas tão perfeitamente combinado que o filme se tornou um modelo do gênero.

Walter é Fred MacMurray, Phyllis é Barbara Stanwick. Ele não é um ator de muitos recursos, mas para o que Billy Wilder quer aqui, é perfeito: um sujeito que gosta de demonstrar que está no controle da situação mesmo quando sabe que não está. Walter não se dá conta disso imediatamente: na maior parte do tempo ele acha que é quem comanda as ações do casal, em sua trama de assassinato. Ela quer o marido morto e juntos armam um plano em que o agente vende uma apólice à futura vítima de um modelo em que a indenização é dupla no caso de morte por acidente (daí o título original). Ele planeja todo o elaborado golpe – mas é Phyllis que, no fundo, o controla, usando todo o sex appeal que possui para enredar Walter.

Nenhum segredo nisso: Pacto de Sangue já começa pelo final, com Walter fazendo sua confissão em um ditafone no escritório, para que depois seu chefe a ouça. “Você não percebeu esta porque o homem que estava procurando estava muito perto – bem à frente da sua mesa”, ele diz. Keyes, o chefe vivido por Edward G. Robinson, não acredita um minuto sequer na história do acidente, na trama contada toda em flashback. “Aquele pequeno ser dentro do meu estômago me diz isso”, diz. Neff o respeita, e talvez a parte mais difícil na coisa toda seja decepcioná-lo. Keyes é esperto, um elemento do qual o plano perfeito de Neff a qualquer momento pode não dar conta.

A história é de James M. Cain, autor de outra trama noir exemplar: O Destino Bate à Sua Porta, filmado na América em 1946 (com Lana Turner e John Garfield), em 1981 (com Jessica Lange e Jack Nicholson) e na Itália em 1942, como Ossessione, por Luchino Visconti. Wilder sempre gostou de escrever com um parceiro e chamou o escritor policial Raymond Chandler para co-roteirizar o filme. Se não foi ódio à primeira vista, demorou pouco para acontecer (uma das histórias sobre os dias em que os dois ficaram trancados na sala pensando e escrevendo o roteiro diz que uma das irritações de Chandler dava-se porque Billy levanta-se para ir ao banheiro o tempo todo; e Billy fazia isso porque não agüentava ficar 15 minutos na mesma sala com Chandler).

Seja lá como tenha sido, o resultado é um primor. Chandler, criador de Philip Marlowe, um dos dois detetives mais famosos da literatura policial (o outro é Sam Spade, de Dashiell Hammett) e autor de livros como O Sono Eterno e Adeus, Minha Adorada, imprimiu toda a crueza que já dominava e uniu seu cinismo ao de Wilder, que por sua vez é o campeão do mundo de frases antológicas no cinema. Há uma série longa delas do primeiro ao último minuto de Pacto de Sangue. O clima do filme ainda ganhou muito com a fotografia definitiva para o gênero de John Seitz – não só por ter mais sombras que luz, mas por sacadas como o uso das persianas, e a luz que passa por elas projetando um efeito nos personagens que evoca o uniforme dos presidiários.

Conta-se também que ninguém em Hollywood estava muito interessado em filmar Pacto de Sangue (a história original é de 1930). O Código Hayes estava à toda e aquela história sórdida – um coquetel explosivo de assassinato e sexo adúltero – ia contra todos os valores “familiares” que o código “defendia”. Wilder encarou tudo e moldou a trama para que os censores do estúdio (a Paramount) não se metessem. Mostrou que a sordidez pode estar em qualquer lugar: se você está fazendo compras em um inocente supermercado de subúrbio, a pessoas na prateleira ao lado podem ser cúmplices de um frio assassinato. E se não dava para mostrar abertamente, por exemplo, que Walter e Phyllis transaram, Wilder tratou de colocar lá um indício forte: a maneira como eles se beijam e, depois de um fade, estão esparramados no sofá (ela, se recompondo). Driblar esses impedimentos era o esporte preferido de Billy Wilder.

Frase
WALTER: “Eu o matei por dinheiro. E por uma mulher. Não consegui o dinheiro. Também não consegui a mulher”.

Pacto de Sangue. (Double Indemnity, Estados Unidos, 1944). Direção: Billy Wilder. Elenco: Barbara Stanwyck, Fred MacMurray, Edward G. Robinson, Porter Hall, Jean Heather.

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